Geógrafo britânico foi destaque do primeiro dia do Seminário Cidades Rebeldes, em São Paulo; segundo ele, o capital entra e sai das crises por meio de processos de urbanização

O geógrafo britânico David Harvey. Foto: Divulgação

O geógrafo britânico David Harvey, professor da City University of New York, em entrevista durante o Seminário Cidades Rebeldes. Foto: Divulgação


O Seminário Internacional Cidades Rebeldes teve início nesta terça-feira (9), no Sesc Pinheiros, em São Paulo. Cerca de mil pessoas compareceram no primeiro dia do evento, que contou com duas conferências e o início do curso de introdução à obra do geógrafo britânico David Harvey. O seminário marca os 20 anos da Boitempo Editorial.

Defensor da ideia de que o povo não só tem o direito de livre acesso à cidade, mas também de modificá-la, o geógrafo britânico David Harvey afirmou que a sociedade constrói cidades para que sejam feitos investimentos, e não com o propósito de serem ocupadas.

Segundo Harvey, “a princípio, todo mundo é a favor do direito à cidade. Os incorporadores, as empreiteiras, o capital. Todos querem tê-lo. A questão é pensarmos o conteúdo deste conceito”, declarou. O geógrafo traçou um paralelo global com as manifestações de junho de 2013. Ele lembrou que os problemas causados pela insatisfação da população com o espaço urbano surgiram não só no Brasil, mas em outros países, como a Turquia.

Retomando as bases da teoria marxista, o britânico acrescentou: “O capital não só entra em crises por conta de processos dramáticos de urbanização, como também procura sair delas da mesma forma”.

O ex-Secretário Lúcio Gregori disse que "a rebeldia compensou", em relação aos protestos de junho de 2013 contra o aumento da tarifa. Foto: Divulgação

O ex-Secretário Lúcio Gregori disse que “a rebeldia compensou”, em relação aos protestos de junho de 2013 contra o aumento da tarifa. Foto: Divulgação

O ex-Secretário Municipal de Transportes de São Paulo e um dos colaboradores do Movimento Passe Livre, Lúcio Gregori falou sobre o projeto Tarifa Zero, de sua autoria. “A mobilidade urbana é tratada como um serviço, o transporte como um produto e a tarifa é parte de um produto excludente dos que não podem pagar”, comparou. Ele lembra que mais de 100 cidades brasileiras revogaram o aumento da tarifa, o que em sua visão atesta que “a rebeldia compensou”, mesmo que a política não esteja preparada para entender e lidar com tal contexto.

Sua visão foi completada pelo próprio Harvey, ao retratar os primórdios de sua relação com o pensamento de Marx para iniciar a conferência O Direito à Cidade. Compuseram a conferência geógrafa Amélia Damiani, e o mediador Flávio Aguiar, professor de literatura brasileira.

A arquiteta e urbanista Raquel Rolnik deu início ao curso dedicado à obra de Harvey, comentando a obra A Construção de uma Visão Marxista do Espaço Urbano, com mediação do jornalista Antonio Martins.

No painel Revoltas e Conciliação na História do Brasil, mediado por Mário Sérgio Conti, o historiador ítalo-brasileiro José Luiz Del Roio criticou a falta de memória do País. “Não existe uma grande nação se não existir uma memória reconhecida pelo País. A nossa baseia-se no homem branco e com poder, mas o IBGE aponta que chegamos a 51% de negros. Ou seja, somos a segunda nação com mais negros e isso não existe na nossa memória”, criticou. Em sua concepção, não há história sem memória e, sem história, uma nação não sabe se organizar, nem lutar.

As duas últimas intervenções da noite foram do psicanalista e ensaísta Tales Ab’Saber e do sociólogo Ricardo Antunes. Ab’Saber pautou seu discurso na questão das decisões políticas que não levam em conta o cunho social, citando como exemplo a situação do Elevado Costa e Silva, o Minhocão.

"A relação do Estado com a população é de extremo poder", declarou o psicanalista e ensaísta Tales Ab'Saber. Foto: Divulgação

“A relação do Estado com a população é de extremo poder”, declarou o psicanalista e ensaísta Tales Ab’Saber. Foto: Divulgação

“A relação do Estado com a população é de extremo poder. Não foi um contrato geral que constituiu o Brasil, mas uma posição de poder. São Paulo foi a cidade que mais sofreu com a ditadura militar. Já na época em que o Minhocão foi construído, ele foi visto como um erro. Não houve um estudo, não tinha nenhum sentido na melhora urbana. Foi apenas uma decisão militar em meio a uma área urbana que tinha intensa vida cultural”, analisou Ab’Saber.

Já Antunes ressaltou a relação entre o trabalho e a luta de classes. Em sua intervenção, reiterou que as classes populares acabam excluídas da conciliação e que, quando se movimentam, acabam contidas com repressão, como historicamente tem acontecido no país.

Ivana Jinkings, diretora da Boitempo Editorial, ressaltou a importância em se discutir a cidade como obra humana, reunindo ativistas e especialistas para discuti-la de forma igualitária para todos.

Programação

O Seminário Internacional Cidades Rebeldes tem sequência nesta quarta-feira (10) com o segundo módulo do curso de introdução à obra de David Harvey. Para entender as crises do capitalismo, com Marcio Pochmann, e três conferências.

Às 14h, Trabalho, mobilidade, flexibilização: a dominação social hoje, com Moishe Postone, debatendo com Jorge Grespan e Vladimir Safatle, mediado por Eleonora de Lucena.

Às 17h, Cidade pra quem? Ganhar e perder a vida na periferia da periferia do capital, com Guilherme Boulos, Vera Telles e Ferréz. A mediação é de Sérgio Amadeu.

Às 20h, Lutas de classe: sindicalismo, partidos e movimentos sociais, com Domenico Losurdo, debatendo com André Singer e Ruy Braga, mediado por Breno Altman.

A programação completa dos demais dias do seminário está disponível no site do evento. Todas as atividades serão transmitidas ao vivo pelo site do evento e posteriormente publicadas no canal da Editora Boitempo no YouTube.

O Seminário Internacional Cidades Rebeldes acontece de 9 a 12 de junho de 2015, no Sesc Pinheiros, em São Paulo (SP). As inscrições podem ser feitas através do Portal Sesc São Paulo.

Link curto: http://brasileiros.com.br/jgH7L