Em entrevista à ArteBrasileiros, Marina Abramović fala do valor comercial de seu trabalho, relembra histórias de sua infância e sua experiência com Ayahuasca

 

Marina Abramovic com a instalação Shoes for Departure, em 1994, em seu estúdio berlinense, na Alemanha. Foto: HeiniSchneebeli/cortesia do acervo do artista

Marina Abramovic com a instalação Shoes for Departure, em 1994, em seu estúdio berlinense, na Alemanha. Foto: HeiniSchneebeli/cortesia do acervo do artista

Quando criança, Marina Abramović acompanhava sua avó à igreja. Entediada, uma vez decidiu tomar toda a água benta de uma pia batismal para tentar “se tornar santa”. A história, contada em seu apartamento em São Paulo, onde permanece por quase três meses, exemplifica como, desde pequena, ela já buscava experiências radicais. Assim como Abramović afirma que “uma boa performance tira tudo de você”, a água benta provocou diarreia e deixou enferma a criança.

Agora, com Terra Comunal, Abramović terceiriza um pouco sua radicalidade. Além de convidar artistas brasileiros a realizarem performances de longa duração, ela faz com que o público também tenha uma ação bastante dinâmica na mostra. “As pessoas precisam experenciar algo real e não apenas olhar”, defende, aproximando-se do que Hélio Oiticica e Lygia Clark já pregavam há mais de 40 anos.

Terra Comunal representa, na carreira de Abramović, um passo além da histórica exposição A Artista está Presente, ocorrida no MoMA, em Nova York, em 2010. Depois da mostra, “quando todos achavam que eu ia me aposentar”, como ela mesma ironiza, aos 69 anos Abramović se recria, mais uma vez, e organiza a maior exposição de sua carreira, que já tem agenda lotada até 2018. “Não tenho nenhum outro interesse além do trabalho.” De onde ela tira tanta energia? Da água: “Essa é a minha droga”, confidencia.

ARTE!Brasileiros No SESC, a participação dos visitantes será mais ativa que em suas mostra anteriores. O que levou você a isso?

Marina Abramović Para responder, preciso voltar ao passado. No início dos anos 1970, quando realmente começaram a ser feitas performances, era muito simples: o público sentava em uma cadeira e o performer atuava à sua frente. No século 21, eu busco mudar radicalmente a relação com o público e creio que, já em A Artista está Presente, criei uma situação onde o público não era visto como um coletivo, mas sim como indivíduo, já que a relação era um para um e, mesmo quem assistia, não o fazia sentado em uma cadeira. Eu retirei as cadeiras porque nelas você fica obrigado a permanecer em uma posição, goste ou não do que você veja, porque a situação gera um constrangimento para quem quer sair. E eu pensei que era muito importante sentir-se livre: se você gostar pode ficar três horas, se não gostar pode ficar três segundos. A questão, então, é o quão carismática é a performance para manter o público lá, o que é uma forma de perceber o seu poder. Após A Artista está Presente, precisei de quatro anos – quando todos achavam que eu ia me aposentar – para pensar uma nova estrutura que, de fato, leva os limites ainda mais longe, por isso 512 Horas (realizada na Galeria Serpentine, em Londres, no ano passado) é tão importante para mim. Nele, o público, de fato, é quem executa o trabalho, o público é quem faz a performance e eu estou junto, misturada, mas às vezes eu nem sou vista. Depois, em minha mais recente exposição na Galeria Sean Kelly, Generator, eu nem estou mais presente. Para mim, no século XXI, o que é necessário, e eu creio que o artista sempre deve buscar perceber o que é necessário, é que as pessoas precisam vivenciar algo real e não apenas olhar.

Você também vai mostrar o novo filme realizado no Brasil durante a mostra?

Nós ainda estamos editando, espero que seja possível finalizá-lo a tempo. Fazer esse filme foi muito importante para mim. Eu sempre vou a diferentes culturas e busco ter novas experiências para aprender algo para o meu próprio corpo e o Brasil é tão rico! Onde quer que se vá, aprende-se algo.

Assim como o corpo é essencial na cultura brasileira, religiosidade também é. Foi esse o tema de sua pesquisa?

A questão espiritual é importante para mim. É preciso ter crença para se fazer certas coisas. Não se pode caminhar sobre brasas e não queimar os pés se você não acredita nisso, senão você vai queimar os pés, e é incrível como acreditar produz certas proteções físicas no corpo.

Registro de Marco Anelli da performance A Artista está Presente, feita e, 2010, no Museum Of Modern Art, em Nova Yorki. Foto: Marco Anelli/Divulgação

Registro de Marco Anelli da performance A Artista está Presente, feita e, 2010, no Museum Of Modern Art, em Nova Yorki. Foto: Marco Anelli/Divulgação

 

Apesar de seu background comunista, você é muito espiritual…

Sim, mas minha avó odiava o comunismo e era muito espiritual. Eu tenho uma história ótima de infância. Eu passava horas com minha avó na igreja enquanto ela rezava e, um dia, fiquei realmente entediada. Então pensei: “Se eu beber toda a água benta que está em um recipiente de mármore, vou virar sagrada”. Peguei uma cadeira, subi e bebi toda a água. Aí, tive uma diarreia horrível e fiquei superdesapontada (risos). Por aí se vê que eu sempre quis experienciar algo.

Para o filme, então, tomou ayahuasca? Como foi?

Claro que tomei, como poderia não tomar. Uau. É forte. Com ayahuasca, foi difícil para mim. Fiquei muito doente, foi algo muito forte. O que acho importante é escolher qual método é bom para cada um. Minhas experiências mais radicais são quando eu não como e apenas bebo água. O período mais longo que consegui foram 16 dias. Esse tipo de experiência é muito forte! Nos primeiros três dias que não se come, o corpo fica doente, porque são criados ácidos para digerir a comida e como não se come nada, dá dor de cabeça, estômago, diarreias. Mas após esses três dias em que não se come, o corpo recebe a mensagem e não produz mais ácido. A partir daí, toda a energia do corpo começa a crescer. É incrível como se sente uma luminosidade. E, apesar de não se usar nenhuma droga, o sentimento é de estar muito louco. Cada dia isso fica mais forte, mas é preciso parar em um momento, porque obviamente começa a ficar perigoso. Nesse workshop eu peço para ficarem cinco dias sem comer e sem falar, bebendo apenas água. Mal posso esperar, é uma forma de ter claridade em minha mente. Água, você sabe, é energia. Se você enche dois copos, e para um você projetou amor, coisas boas e o outro só ódio, coisas más, no primeiro, olhando-se no microscópio, as moléculas parecem simétricas, enquanto no segundo, totalmente caóticas. Isso é ciência. E água é minha droga.

 

Imagem capturada do vídeo confession, 2010. Foto: Marco Anelli/Divulgação

Imagem capturada do vídeo confession, 2010. Foto: Marco Anelli/Divulgação

Você estará aqui durante toda a mostra?

Sim. Isso é outra coisa importante. Artistas vêm, organizam uma mostra e vão embora. Para mim, é importante pensar como dar algo para a sociedade, para a comunidade. Estar presente em todo processo faz parte disso, é importante.

Sabe que a Pina Bausch assistia a todos os espetáculos da companhia dela, ao contrário da maioria dos coreógrafos, que estão presentes apenas na première? E uma vez perguntei a ela por quê…

Ah, interessante, o que ela disse?

Ela disse que quando se ama algo é preciso cuidar e, por isso, ela sempre estava presente.

Eu entendo isso totalmente, porque é como o seu bebê, não se consegue abandonar. E ela vivia para o trabalho, eu também, não tenho nenhum outro interesse além do trabalho e do que precisa ser feito para ele.

Após a mostra no MoMA, você se transformou em uma celebridade como jamais se esperou nas artes visuais…

Especialmente no campo da performance!

E você, que passou décadas sem vender trabalhos, de repente tornou-se alguém que todo mundo deseja…

Mas meu preço no mercado é tão baixo! Qualquer artista com 30 anos tem preços maiores que o meu! É confuso para os colecionadores, eu entendo. Afinal, o que eles compram? Fotografias, objetos, não é fácil. Mas isso é um fenômeno, porque se minha imagem tem muito valor, minhas obras não têm! Mas, sabe, quando fui anunciada entre as cem figuras mais influentes (pela revista Time), isso foi importante para mim, porque mostra que, se meu trabalho não tem valor no mercado, mesmo assim sou respeitada fora do campo da arte. E mesmo gente que nunca vai a museus ou galerias vem ver meu trabalho porque eles vivenciam algo real, que eu mesma não sei se é arte, mas que está lá e sensibiliza as pessoas.

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