Conteúdo especial sobre os 50 anos de Samba Esquema Novo, de Jorge Ben Jor, e outras quatro reportagens sobre álbuns históricos

Jorgeben_samba_esquema_novoNeste 20° post, Quintessência traz hoje reportagem especial, publicada na edição de dezembro de 2013 da Brasileiros: uma homenagem aos 50 anos de Samba Esquema Novo, álbum de estréia de Jorge Ben Jor – então, aos 21 anos, chamado apenas Jorge Ben. 

Brasileiros sempre procurou valorizar a história de nossa rica música popular e, assim como temos essa coluna especialmente para esse fim, também são frequentes as reportagens dedicadas a reverenciar a história de grandes álbuns da MPB.

Recomendamos, a seguir, algumas delas:

- Os Bastidores de Getz/Gilberto, de Ruy Castro. Em reportagem exclusiva para a Brasileiros, o biógrafo revela a tensão por trás do álbum de Stan Getz e João Gilberto, estopim da bossa nova com um fenômeno mundial;   
- O Disco de Uma Amizade, de André de Oliveira. A história do primeiro álbum de Nelson Cavaquinho contada por seu produtor, o amigo Pelão;
- Acabou Chorare 40 anos, de Gonçalo Júnior. Nas quatro décadas do clássico álbum dos Novos Baianos, nosso editor entrevistou Moraes Moreira e ainda ganhou um poema inédito, exclusivo para sua reportagem; 
- 50 Anos de Puro Som, de Marcelo Pinheiro. Os bastidores do álbum de estreia do Tamba Trio, um clássico do samba-jazz, revelados pelo contrabaixista, saxofonista e flautista do trio, Bebeto Castilho. 

A seguir, confira a íntegra da reportagem dedicada a Samba Esquema Novo (ouça o disco).

Boas leituras e um feliz 2014! Pleno de harmonia, paz, amor, conquistas e muita música!    

Saiubá, Saiubá, Saiubá…

Cifrado para alguns, o título dessa reportagem faz alusão ao refrão de Por Causa de Você, Menina. Sucesso ainda maior, Mas, que Nada! consagrou de vez o talento de Jorge Ben (hoje, Ben Jor), que conquistou o Brasil há exatos 50 anos, com o clássico LP Samba Esquema Novo. Tão importante para a evolução da nascente MPB quanto Chega de Saudade, de João Gilberto, o álbum fez a cabeça de criadores do manguebit, como Fred Zero Quatro, do Mundo Livre S/A, e parte dos músicos da Nação Zumbi, que tem projeto dedicado à obra inaugural do Babulina

Jorge Ben

SAMBALANÇO – Jorge se apresenta na TV, em 1970, ocasião em que lançou o álbum Força Bruta, o segundo em parceria com o Trio Mocotó (foto: Agência Estado)

A crítica especializada e os maiores historiadores da música popular brasileira feita no século 20 são categóricos ao afirmar: Chega de Saudade, álbum de estreia de João Gilberto, é momento divisor para a modernização da nossa música; espécie de “alicerce” estético de um gênero que, a partir do início dos anos 1970, sinteticamente passaria a ser chamado de MPB – antes, tratado como MPM (Música Popular Moderna). Lançado em 1959, Chega de Saudade arrebatou ouvintes ansiosos pelo novo, ao romper com velhos estatutos e apontar direções, não somente para esses ouvintes, mas especialmente para aspirantes a cantores e compositores do País.

Depois de anos a fio construindo seus estatutos, João mandou às favas histrionismos vocais – derivados do bolero e de trejeitos dispensáveis dos crooners americanos – e evitou, como o diabo foge da cruz, reducionismos harmônicos de um sambão quadrado, praticado há décadas por inúmeros artistas brasileiros sem a menor preocupação evolutiva. Com sua miríade de novas estruturas tonais e harmônicas, a influência do jazz (cantada com fina ironia por Carlinhos Lyra) e a “batida diferente” de seu violão bossa nova (eternizada na canção de mesmo nome de Durval Ferreira e Mauricio Einhorn), João abriu vasto horizonte para a música popular do País vislumbrar o futuro.

Quatro anos mais tarde, um de seus mais dedicados e irreverentes discípulos, Jorge Ben Jor (que, à época, assinava apenas Jorge Ben), aos 21 anos, fez também um álbum de estreia de influência proporcional, que ampliou as trilhas abertas por João ao misturar às harmonias dele uma batida frenética, egressa do blues e do rock’n’roll. Neste 2013 que chega ao fim, vários veículos de imprensa celebraram os 40 anos de álbuns históricos para a MPB, como as estreias de Luiz Melodia, Secos e Molhados, Sérgio Sampaio e Raul Seixas. Curiosamente, ninguém recordou que Samba Esquema Novo, o debut triunfal de Jorge, acaba de se tornar cinquentão – dos mais modernos e influentes, diga-se.

A seguir, a Brasileiros revela bastidores da produção do LP, depoimentos de artistas influenciados pela obra de Ben Jor e também uma entrevista com Fred Zero Quatro – líder do Mundo Livre S/A e fã devoto de Jorge Ben Jor, a ponto de, em 1994, dar ao disco de estreia de sua banda, um dos pilares do manguebit, o título Samba Esquema Noise. A obra inaugural de Jorge é também influência para remanescentes da Nação Zumbi, banda do saudoso Chico Science, que mantém na ativa, há cinco anos, o projeto Los Sebosos Postizos, dedicado ao cancioneiro de primeira safra do Babulina (apelido de Jorge, em referência à sua pronúncia equivocada da canção Bop-A-Lena, de Ronnie Self).  

DISCÍPULOS DO BEN - Parte dos músicos da Nação Zumbi formou banda-tributo a Ben Jor, que lançou em 2012 o primeiro álbum

DISCÍPULOS DO BEN – Parte dos músicos da Nação Zumbi formou banda-tributo a Ben Jor, que lançou em 2012 o primeiro álbum

Do samba misto de maracatu à síntese tropicalista

“Uma gravação de Jorge Ben Jor capsulava nossas ambições. Era Se Manda, um híbrido de baião e marcha funk, cantado e tocado com violência saudável e modernidade pop que nos enchia de entusiasmo e inveja. Não é que Jorge Ben criasse fusões, tampouco se pode dizer que ele tenha passado da bossa nova para o rhythm & blues. Sua originalidade, quando apareceu com sua versão do samba moderno, em Samba Esquema Novo, nascia justamente de ele tocar o violão como quem tivesse se adestrado ouvindo guitarras de rock e música negra americana.” Extraída de Verdade Tropical (a autobiografia de Caetano Veloso, lançada em 1997, pela Cia. das Letras), a frase dimensiona a influência exercida por Jorge Ben Jor nos dois principais artífices do tropicalismo.

Nos parágrafos seguintes, Caetano segue defendendo a inspiração capital que o tal “samba novo” exerceu nele e em seu conterrâneo. “Gil, que o amara irrestritamente desde o início, tomou seus procedimentos musicais como uma das fontes principais de inspiração para suas buscas no violão e nos arranjos. E eu que repetidas vezes imitei alguma coisa do seu jeito de fazer poesia e de cantar (tendo gravado um bom número de suas canções), uma vez escrevi ‘Se nós, tropicalistas, tínhamos em nosso afã de pôr as entranhas do Brasil para fora, efetuando uma descida aos infernos, o artista Jorge Ben é o homem que habita o país utópico trans-histórico, que temos o dever de construir e que vive em nós’.”

Em julho de 2009, em longa entrevista concedida à Brasileiros, Gil reverbera a defesa de Caetano ao relembrar seu encontro com o carioca, no anárquico álbum Gil e Jorge, lançado por eles em 1975: “O Jorge é muito audacioso, embora possa não parecer, pelo conjunto das coisas, do comportamento dele, do modo como ele reage ao mundo e as coisas que ele diz. Na realização musical, ele é muito arrojado, solto e livre. É um bluesman, como se fosse um daqueles americanos libertários, fortes e tal”.

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PUPILO – Cantados por Jorge, seus dois primeiros sucessos foram lançados no álbum de 1962, do organista Zé Maria

Mas, vale lembrar, antes mesmo de chegar a esse status de “alquimista” das aspirações estéticas do tropicalismo, que surgiria, “divino e maravilhoso”, em 1967, Jorge lançou, além de Samba Esquema Novo, outros quatro LPs que consolidaram os predicados apontados por Gil e Caetano – Sacundin Ben Samba, Ben é Samba Bom, Big-Ben e O Bidú, Silêncio no Brooklin (no qual está registrada a canção Se Manda). Discografia ascendente, que começou a ser constituída em 1962, quando o jovem aspirante a cantor e compositor integrava, como percussionista, o conjunto de Zé Maria. Tudo Azul, álbum lançado pelo veterano organista, naquele mesmo ano, seria o cartão de visita de Jorge, visto que, entusiasmado com o talento de seu prodígio – também tocador de ganzá e tamborim, no bloco carnavalesco Cometas do Bispo –, Zé Maria decidiu gravar duas de suas canções, que estavam fadadas ao sucesso: Mas, que Nada! e Por Causa de Você, Menina.

Habitué das jam sessions do Beco das Garrafas, Jorge e seu modo peculiar de tocar violão – ele é dono de uma das mãos direitas mais ritmadas da música brasileira –, começou a chamar a atenção dos músicos que apinhavam os inferninhos do beco da Rua Duvivier, em Copacabana. Um deles, o craque Manuel Gusmão, baixista do Copa Trio, grupo liderado pelo baterista Dom Um Romão, revelou ao diretor artístico da Philips, Armando Pittigliani, que um novo talento desabrochava no antro boêmio do beco e precisava urgentemente ser conhecido por ele. Autor da maioria dos arranjos de Samba Esquema Novo e um dos criadores do samba-jazz, gênero instrumental derivado da bossa nova, o maestro J.T. Meirelles (João Theodoro Meirelles, morto em 2006) relembrou o episódio em entrevista, de 2003, concedida ao repórter Ronaldo Evangelista: “Em 1963, eu estava passando a maior parte do meu tempo no Rio, tocando no Bottle’s (um dos bares mais famosos do Beco das Garrafas, de propriedade dos irmãos Giovanni e Alberico Campana), e o Jorge Ben costumava aparecer lá para tocar. O Jorge sempre tocava aquelas duas primeiras músicas dele, Mas, que Nada! e Por Causa de Você, Menina, até que o Mané o levou à Philips”. No livro Chega de Saudade, Ruy Castro também descreve o encontro: “Pittigliani descobriu Jorge Ben no Beco das Garrafas, gravou seu primeiro disco solo, Samba Esquema Novo, e vendeu cem mil cópias em dois meses”.

Chega de Saudade, o livro, é muito mais um retrato dos dias inaugurais da bossa nova centrado sobretudo na figura de João Gilberto. Naturalmente, um detalhe peculiar sobre a estreia de Jorge não foi relatado nele. Ao conhecer Jorge e ouvir o rapaz tocar seu violão, semanas antes de começar a fazer as “cem mil cópias em dois meses”, Pittigliani, em uma estratégia de grande diretor que foi, não hesitou: assinou contrato com ele e ordenou que imediatamente gravasse um compacto, com as duas músicas (aliás, a última obra brasileira a ser produzida em 78 rpm). A urgência fazia-se mais que necessária, para driblar o lançamento da Continental – o álbum de Zé Maria, que também continha as duas músicas. Pittigliani conseguiu suplantar o concorrente e, em duas semanas, também fez cem mil cópias do compacto. “Vendeu mais que pãozinho quente!”,  relembrou, nos anos 1990, em entrevista ao jornal O Globo (o “militante fonográfico”, como se autointitula, completará 79 anos no dia 26 deste mês, mora no Rio de Janeiro, mas não foi possível entrevistá-lo, pois ele se recuperava de uma cirurgia; em 2014, Pittigliani pretende lançar seu livro de memórias, Você Ainda não Ouviu Nada! – título que faz referência ao álbum lançado pela Philips, em 1964, de Sergio Mendes e Sexteto Bossa Rio, um clássico do samba-jazz).

Na entrevista concedia a Evangelista, Meirelles esmiúça detalhes da decisão de Pittigliani – que também estava de olho no conjunto do maestro, uma nova formação do Copa Trio, acrescido de dois músicos e intitulado Copa 5. “O Jorge é ótimo, mas o som da sua banda é bem interessante, hein…”, disse a ele o chefão da Philips. “Foi então que ele convidou a gente para gravar o disco do Jorge.” Prática comum nos trabalhos conduzidos por Pittigliani, os músicos tiveram carta branca e ele manteve total distância das sessões de gravações, como atestou Meirelles: “Ele só conheceu o som do disco depois de gravado. Era um cara que acreditava muito na gente. E foi justamente por isso que ele produziu as melhores coisas, o Tamba Trio, Os Cariocas…”.

Em 1964, foi a vez do próprio Meirelles reunir os músicos de seu Copa 5 e lançar, também pela Philips, a obra-prima O Som. O combo era formado por Meirelles, sax e flauta, o pianista Luiz Carlos Vinhas, o baterista Dom Um Romão (criador do Copa Trio), o trompetista Pedro Paulo e o baixista Manuel Gusmão. De elegância insuspeita, o Copa 5 deu suporte a Jorge em oito das 12 faixas de Samba Esquema Novo, “embalado” com o mais requintado samba-jazz. Além de Ualá, Ualalá, Vem Morena, Vem e Rosa, Menina Rosa, os dois carros-chefe do biscoito fino, Por Causa de Você Menina e Mas, que Nada!, têm no arranjo original a pena elegante de Meirelles – a segunda, inclusive, levou Jorge a cruzar fronteiras e tornar-se conhecido nos EUA e na Europa a partir de 1965, com o sucesso arrebatador da versão de Sergio Mendes & Brasil 66’, e as releituras de Miriam Makeba, Dizzy Gillespie e Odell Brown. Há no disco, também, quatro músicas arranjadas pelo maestro Lindolfo Gaya e executadas por sua orquestra – Menina Bonita não Chora, Quero Esquecer Você, É só Sambar e Balança Pema –, outros dois clássicos orquestrados pelo pianista Luiz Carlos Vinhas – Chove Chuva e A Tamba – e uma releitura, Tim Dom Dom, de Codó e João Carlos Monteiro, arranjada por Carlos Monteiro de Souza.

Crítico musical visionário, que antecipou em artigos históricos a importância do “Grupo Baiano” (como ele intitulou a trupe de Gil, Caetano, Gal, Bethânia e Tom Zé, que vieram a São Paulo, em 1965, plantar as primeiras sementes do tropicalismo), Augusto de Campos, em 1966, fez defesa inconteste de Jorge no livro Balanço da Bossa (um clássico da Editora Perspectiva): “Por mais que seu ‘iê-iê-iemanjá’ desagrade aos puritanos da música nacional, que querem ver no chamado ‘samba-jovem’ um crime de lesa-samba, a verdade é que Jorge Ben deglutiu o iê-iê-iê à sua maneira, sem trair a si próprio. E a prova é que o seu Chorava Todo Mundo (canção lançada em 1965, no LP Big-Ben) já era um sucesso do Fino (o programa Fino da Bossa) antes mesmo de ser uma brasa da Jovem Guarda (o grande sucesso da TV Record, apresentado por Roberto Carlos, Wanderléa e Erasmo)”.

Sobre essas mesmas críticas, astuto, Jorge saiu-se em defesa própria na revista Intervalo, em 1966: “Recebo gelo, piadinhas, indiretas e críticas dos subversivos do samba (era, então, acusado de alienado e volúvel) e da turma do samba social. Não tenho nada contra eles, mas deixem que eu cante minhas composições para o público que quiser. Sem o pernóstico do jazz importado e de letras sociais, minha música é cantada por todo mundo. Por crianças que mal sabem falar, por jovens e por adultos. O que quer dizer, é ‘sucesso’, mesmo sofrendo esnobação e pichação dos subversivos do samba”.  

Infelizmente, não tivemos sucesso na missão de incluir depoimentos de Jorge nessa homenagem. Desde os anos 1990, ele vive maior parte do tempo nos EUA e é notoriamente avesso a entrevistas. Fato que em nada diminui a dimensão de sua obra e de seu álbum de estreia, fadado a ser lembrado, de maneira atemporal, como uma das obras que ajudaram a construir o imaginário da MPB, rótulo aglutinador da moderna música brasileira, que tanto faria a cabeça de sucessivas gerações a partir dos anos 1970.

Esquema novo no mangue

Fred Zero Quatro, líder do Mundo Livre S/A e um dos criadores do manguebit, relembra as origens paternas da influência de Jorge Ben Jor em sua carreira de compositor

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MISTURA LIVRE – Fred Zero Quatro (com o cavaquinho) fundiu rock e sambalanço no Mundo Livre S/A (foto: Duda Lopes)

Referência capital para o manguebit, Jorge Ben Jor também inspirou Fred Zero Quatro na escolha do nome do primeiro álbum do Mundo Livre S/A – o já clássico Samba Esquema Noise, de 1994. Tão devotos do Babulina quanto ele, quatro amigos da Nação Zumbi – o vocalista Jorge Du Peixe, o baixista Alexandre Dengue, o guitarrista Lucio Maia e o baterista Pupilo – mantêm há cinco anos o projeto paralelo Los Sebosos Postizos. Dedicada a releituras de clássicos de Jorge – sobretudo lançados entre 1966 e 1977; de Samba Esquema Novo a África Brasil –, em 2012 a banda-tributo colocou na praça seu primeiro registro, o CD Los Sebosos Postizos Interpretam Jorge Ben Jor.

Surgidas em Recife, as duas bandas inaugurais do manguebit escreveram capítulo de renovação da música brasileira ao defenderem o novo gênero nos anos 1990. Zero Quatro e Chico Science – carismático líder da Nação Zumbi, morto no carnaval de 1997 em acidente automobilístico – foram os líderes do movimento. Signatário do manifesto
Caranguejos com Cérebro, que definiu estatutos do manguebit, o cantor e compositor do Mundo Livre S/A falou à Brasileiros sobre a influência de Jorge em sua carreira.

 

Brasileiros – Como e quando foi que você passou a se interessar pela obra do Jorge?

Fred Zero Quatro – Na década de 1970, eu ouvia muito do que meu pai (Seu Zelito, morto em 2005) escutava no toca-fitas do carro. A praia dele era o sambalanço de Elza Soares, Miltinho e Wilson Simonal. Quando foi lançado Jorge Ben Dez Anos Depois (em 1973), o disco bombou em todo o País, uma cópia foi parar em casa e ouvi muito. Na sequência, Jorge lançou A Tábua de Esmeraldas, e meu pai também comprou um. Eu já havia tido algumas aulas de piano, mas a partir do contato com o Tábua minha obsessão passou a ser o violão. Fiquei fascinado pelo disco a ponto de decorar as levadas de todas as músicas. Meu pai se sensibilizou e prometeu: “Se você passar na escola, com mérito, te dou um violão”. Inocente, eu achava que bastaria ter o violão para tocar como Jorge. Quando ganhei o primeiro, jurei que minha mão direita estava igual à dele.

Brasileiros – E como é que entrou o noise (barulho) no teu samba?

F.Z.Q. – O cara que me deu as primeiras noções de violão tinha uma banda de rock e me apresentou Suzi Quatro e Kiss. Além da obsessão com o samba psicodélico do Tábua comprei o disco da Suzi e acabei misturando tudo. Eram os dois LPs que eu mais ouvia. Pouco depois, comecei a me apaixonar por funk e virei fã do Nile Rodgers, guitarrista do Chic. Algo que me fez uma pessoa solitária, pois, com esse gosto eclético, nunca tive uma galera que consumia música em grupo. Quando fizemos o primeiro álbum do Mundo Livre, não foi fácil escolher o nome do disco. Em algum momento das elucubrações sobre o título, me ocorreu o trocadilho “samba esquema noise”. Cresci ouvindo as músicas do Samba Esquema Novo no rádio de casa, na rua e em todos os lugares. O mundo todo cantou Mas, que Nada! e Chove Chuva. São canções que estarão para sempre no inconsciente coletivo do brasileiro.

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