Artigo do repórter Luiz Cláudio Cunha contrapõe a inércia dos militares ao mea culpa feito pela Rede Globo, o principal sustentáculo civil do regime autoritário

O repórter LUIZ CLÁUDIO CUNHA, reconhecido como Notório Saber em Jornalismo pela Universidade de Brasília, ganhou projeção ao denunciar, em 1978, o sequestro de uruguaios pela Operação Condor em solo brasileiro. Desde então, ocupou postos de peso na carreira, como a direção em Brasília das sucursais das revistas Veja e IstoÉ e do jornal O Estado de S.Paulo. Quando consultor da Comissão Nacional da Verdade, foi afastado em julho passado por criticar a postura de alguns de seus integrantes e apontar a falta de empenho do ministro da Defesa e dos comandantes do Exército e da Marinha no esclarecimento de crimes da ditadura.

HONRAS MILITARES Cerimônia da chegada dos restos mortais de João Goulart em Brasília, 50 anos após o golpe que derrubou o presidente

HONRAS MILITARES Cerimônia da chegada dos restos mortais de João Goulart em Brasília, 50 anos após o golpe que derrubou o presidente


Passaram-se 49 anos, quase meio século, para o Brasil ver o inesperado, o impensável. Não uma, mas duas vezes. No curto intervalo de 75 dias, o País que hostiliza a memória teve de se voltar para o passado e resgatar personagens e verdades históricas, revolvendo fatos e circunstâncias que uniram durante muito tempo duas forças poderosas na implantação e essenciais na sustentação da ditadura: as Forças Armadas e as Organizações Globo.

Na manhã cinzenta de uma histórica quinta-feira, 14 de novembro de 2013, no hangar da Base Aérea de Brasília, dez cadetes do Exército, Marinha e Aeronáutica carregaram com visível esforço a pesada urna funerária que continha os restos mortais do presidente João Goulart (1919-1976), exumado de seu túmulo em São Borja (RS) para uma perícia internacional que poderá elucidar dúvidas sobre sua morte. O esquife foi recebido com reverência de chefe de Estado, guarda de honra, hino, salva de tiros de canhão e um forte clima de emoção dominava os 160 convidados da família Goulart e da presidenta Dilma Rousseff, que ali estava com parte de seu Ministério. Entre as autoridades, os três comandantes das Forças Armadas, que prestaram continências tardias ao homem que derrubaram do poder em 1964, marco de uma ruptura institucional que golpeou a democracia e martirizou a nação pela violência e pelo arbítrio.

Goulart, popularizado como Jango, resume uma acelerada história de sucesso que a força militar abortou pelo peso esmagador das armas. Aos 26 anos, Jango era apenas um jovem e rico fazendeiro na fronteira do Rio Grande do Sul com a Argentina. Aos 28, estreou na política como deputado estadual. Aos 31, tornou-se deputado federal. Com 34 anos, foi nomeado ministro do Trabalho por Getúlio Vargas, seu padrinho político. Aos 36, elegeu-se vice-presidente com mais votos do que o presidente eleito, Juscelino Kubitschek. Aos 41, reelegeu-se vice, pela chapa de oposição ao presidente eleito Jânio Quadros. Aos 42 anos, pela crise inesperada da renúncia do titular, viu-se ungido presidente da República, 16 anos mais jovem do que Lula ao chegar ao Planalto em 2003. Aos 45, foi deposto e exilado. Aos 57, morreu no exílio argentino e só então pode regressar à sua terra natal. Teria 94 anos, agora, se não tivesse retornado a Brasília reduzido aos restos de um punhado de ossos ainda atravessados na consciência nacional. A volta de Jango à sede do poder, do qual foi apeado militarmente há meio século, foi o primeiro fato inesperado que remexeu com a memória dos brasileiros. O segundo fato, ainda mais imprevisível, ocorreu dois meses e meio antes.

Na edição nobre de um domingo, 1o de setembro de 2013, o jornal O Globo, carro-chefe das Organizações Globo, abriu duas páginas para um histórico mea culpa, reconhecendo em editorial um refrão das ruas: “A verdade é dura, a Globo apoiou a ditadura”. O editorialista cravou que, “à luz da História, não há por que não reconhecer, hoje, explicitamente, que o apoio foi um erro, assim como equivocadas foram outras decisões editoriais que decorreram desse desacerto original”.

Fã de auditório

Não cabe discutir se o gesto da Globo envolve puro marketing, medo velado das manifestações, mero oportunismo político ou um genuíno arrependimento. O que importa é o inédito, amadurecido, eloquente reconhecimento de um memorável, irremediável erro pelo mais poderoso grupo de comunicação do País, que tem as digitais marcadas na sobrevida de 21 anos do mais longo período autoritário do Brasil. O jornal fez dura oposição ao governo Goulart e já em 1965, no ano seguinte à sua deposição, inaugurou a rede de televisão que se forjou e se consolidou à sombra do regime militar que a Rede Globo apoiou com o fervor de fã de auditório.

Nasce daí uma pergunta inevitável: e o mea culpa dos generais? Veremos algum dia um general fazendo um contrito mea culpa?

A simbiose entre a rede e os militares (“A Globo e você, tudo a ver”, diz o bordão da emissora) nasceu nas entranhas do regime de 1964, invadiu a consciência das multidões das Diretas Já da década de 1980 e acabou no remoído editorial do jornal da casa de 2013, em uma inusitada espiral midiática que começa com uma adesão entusiasmada, meio século atrás, e termina agora com um envergonhado mea culpa

Existe, porém, uma verdade ainda mais dura que faz a diferença entre a Globo e as Forças Armadas. Os militares, de fato, foram muito além: eles desencadearam, criaram, organizaram, moldaram, radicalizaram e sustentaram a ditadura que a Globo apoiou. Teriam, assim, razões mais sérias para um mea culpa ainda mais sentido perante a Nação que violentaram durante duas décadas, quebrando a Constituição e instalando um regime de arbítrio que impôs a censura, sufocou as liberdades, criminalizou a política, cassou, perseguiu, prendeu, torturou, exilou, desapareceu ou matou dissidentes, insurgentes e inocentes, impondo o terror de Estado na mais longeva ditadura da história do País. Haja culpa para expiar! 

A Globo, é justo reconhecer, fez isso agora de forma escancarada, pública, através de seu jornal e de sua rede, exposta ao julgamento de uma audiência que ela cativa como ninguém, na condição de um império global de 122 emissoras próprias ou afiliadas que cobrem 5.482 municípios onde vivem 99,5% dos 200 milhões de brasileiros. Não é pouca coisa para quem foi, durante tanto tempo, o braço civil e o mais conspícuo suporte da ditadura de 1964. Já o braço militar, que impôs a ferro e fogo o regime de força, dá sinais de que experimenta o mesmo desconforto, mas não demonstra a mesma coragem para expiar seus erros, muito menos disposição para assumir suas responsabilidades perante a História.

Apesar das aparências e do recato da disciplina, os comandantes militares estão cada vez mais inquietos. Enquadrados pela democracia há 28 anos, subordinados há 11 anos por três governos sucessivos de uma legenda que abriga antigos insurretos da luta armada, comandados há três anos pelo Palácio do Planalto, hoje ocupado por uma ex-guerrilheira que foi presa política e torturada, os generais se mostram cada vez mais desconfortáveis com uma discussão incômoda, dolorosa, mas necessária: as Forças Armadas, sua culpa na ditadura e sua responsabilidade pela tortura e morte de quem a enfrentou. Uma discussão que se alastra e ganha corpo com o advento em 2012 da Comissão Nacional da Verdade (CNV), que já se espraia em outras cem comissões e subcomissões país afora.

MEMÓRIA Deposto da Presidência aos 45 anos, Jango morreu no exílio, na Argentina

MEMÓRIA Deposto da Presidência aos 45 anos, Jango morreu no exílio, na Argentina

Prazo para acabar

O clamor por verdade e justiça, graças a essa rede em expansão que tanto incomoda os militares, hoje se estende por 16 Estados, mais de 15 universidades (de notórias como USP, UFRJ e UnB a escolas menos conhecidas no Recôncavo Baiano, Campina Grande ou Blumenau), entidades como CUT, UNE, OAB, CONTAG e Ministério Público, 20 sindicatos de jornalistas, entidades de magistrados e petroleiros, associações de historiadores, comunidades indígenas e cerca de uma dúzia de cidades – grandes (São Paulo, Rio de Janeiro), médias (Campinas, Niterói, Bauru) ou pequenas (Divinópolis, Araras, Macaé), entre outras.

Um detalhe pouco notado pelo País paisano, mas percebido pelos generais mais argutos, é que a CNV tem prazo para acabar (maio de 2014), talvez ganhando uma prorrogação de seis meses. Mas o resto veio para ficar. As comissões nascidas à sombra da CNV não têm prazo para concluir seus trabalhos. A capilaridade desse movimento contraria os interesses das Forças Armadas, que acusam de revanchistas quaisquer tentativas de remexer as águas paradas desse poço de escuridão.

golpe-10Nada tranquiliza os generais, nem a voz de sua comandante em chefe, a presidenta da República. Em duas solenidades no Palácio do Planalto, diante dos quatro chefes militares – os comandantes do Exército, da Marinha e da Aeronáutica e o chefe do Estado-Maior Conjunto –, Dilma Rousseff enfatizou que a busca pela verdade não implicava qualquer tipo de vingança. “A palavra verdade não abriga nem o ressentimento, nem o ódio, nem o perdão. É o contrário de esquecimento. Memória é história”, ensinou ela, em 16 de maio de 2012, ao instalar a Comissão Nacional da Verdade. Sete meses antes, em 18 de novembro de 2011, ao sancionar a lei que criava a CNV, Dilma definiu o sentido daquele momento: “Sem revanchismo, mas sem a cumplicidade do silêncio”.

Hostilidade fardada

A mão pesada dos militares manchou a cerimônia, pouco antes de seu início, com o veto inesperado dos comandantes ao discurso que seria feito por Vera Paiva, filha do ex-deputado federal Rubens Paiva, assassinado sob tortura em 1971 no DOI-CODI do I Exército, no Rio de Janeiro. O mal-estar explícito dos militares ficou eternizado, via Embratel, nas imagens da cerimônia gravadas por 44 minutos pelo canal estatal, a TV NBR. Os comandantes estão sentados na segunda fila, perfilados, sérios, calados. Quando o locutor anuncia a assinatura de Dilma na lei que cria a CNV, aos 27’37’’ de gravação, todos os presentes se levantam para aplaudir. A câmera de TV, que filma por trás, mostra certa hesitação de nove segundos dos comandantes, que se entreolham discretamente enquanto toda a plateia à volta se coloca em pé, repetindo Dilma no palco e os quatro ministros que a acompanham.

Permanecer sentado, naquelas circunstâncias, seria mais do que má educação – seria uma grave insubordinação. Assim, aos 27’46’’, os quatro comandantes se levantam, lentamente, mas com os braços para baixo. Não aplaudem, não reagem. Permanecem estáticos até que as palmas cessam e todos voltam a sentar, aos 28’20’’. Durante 43 longos segundos, os quatros oficiais-generais destoaram do clima de emoção que pairava no ar, mantendo-se álgidos e indiferentes. Quem não viu na TV pode conferir a hostilidade fardada na internet, no mesmo dia, graças ao blog “Bastidores do Poder”, do jornalista Josias de Souza, abrigado no site da Folha Online. No preciso flagrante do repórter-fotográfico Alan Marques, aparecem 11 pessoas batendo palmas, e apenas quatro com as mãos sobre o colo, imóveis, contidos na contrariedade sincronizada que exalam. Eles mesmos, os comandantes das Forças Armadas do Brasil.

O drama de um País que ainda se debate com o trauma de um passado mal resolvido pode ser medido entre seis homens – os dois trios que comandam as duas corporações, hoje circunstancialmente apartadas, que representam as duas caras da ditadura que um dia definiram e que juntas defenderam, com a irmandade de parceiros e aliados.

De um lado, a face risonha do trio global, os irmãos Marinho, filhos do patriarca Roberto Marinho (1904-2003), que herdaram junto com o império de comunicação da Globo a penosa fama de ser o mais importante sustentáculo civil do regime autoritário. De outro lado, a face sisuda, cada vez mais tensa do trio das Forças Armadas, os comandantes do Exército, da Marinha e da Aeronáutica, que suportam o fardo da instituição armada que, fiel a seu lema de hoje, foi o “braço forte, a mão amiga” da ditadura. Nada ilustra melhor a intimidade entre as duas forças, a global e a fardada, do que a foto emblemática de João Figueiredo, o último dos cinco generais-presidentes do ciclo autoritário, de braços dados com o “doutor” Roberto, conforme o tratamento reverencial dispensado por paisanos ou generais ao comandante em chefe da Globo.

Existem bons motivos para que Roberto Irineu Marinho, o irmão mais velho e presidente das Organizações Globo, e os dois vice-presidentes mais jovens, João Roberto e José Roberto Marinho, estejam sorridentes. E há fortes razões para que o general Enzo Martins Peri, o almirante Júlio Soares de Moura Neto e o brigadeiro Juniti Saito, comandantes das Forças Armadas, se mostrem carrancudos. O trio global tem sonantes motivos para fazer seu estrondoso mea culpa. O trio fardado tem razões memoráveis para manter sufocado o mea culpa que sonegam ao povo brasileiro que lhes paga os soldos. Os números e os fatos explicam melhor essa crucial diferença.

Ministros - Comissão Nacional da Verdade

SEM APLAUSOS Os comandantes militares no ato de criação da Comissão da Verdade

Os sorrisos globais exibem a exuberante prosperidade que moldou o sucesso da Rede Globo sob a treva frondosa do regime autoritário. Em agosto passado, a revista Forbes apresentou a lista dos raríssimos abonados que acumularam no país pelo menos R$ 1 bilhão em 2013, um privilégio extraordinário para apenas 124 brasileiros, na multidão de 200 milhões de habitantes, onde a renda média mensal de quem trabalha alcança irrisórios R$ 1.507, segundo o IBGE de 2012. Nessa conta, um brasileiro médio levaria 55 mil anos para alcançar o seu primeiro bilhão, ou seja, precisaria ser um dos primeiros seres humanos das Américas, no final do Pleistoceno, quando o planeta vivia a era geológica das glaciações e o homem dividia o ambiente hostil com mamutes e tigres-dentes-de-sabre.

Tudo por dinheiro

Na espécie sempre preservada da centena de bilionários de coloração verde-amarela, o sobrenome mais rico é o da família Marinho, que acumula uma fortuna de quase R$ 52 bilhões, irmãmente distribuídos assim: Roberto Irineu com R$ 17, 28 bi, João Roberto mais modesto com R$ 17,26 bi e o mais pobre, José Roberto, com apenas R$ 17,10 bi. Neste caso, a paleontologia precisaria ser medida em uma escala milionária de tempo. Um pedreiro ganha hoje aproximadamente dois salários mínimos, a renda média do IBGE. Ele precisaria trabalhar duro, mês a mês, desde o Paleolítico, a Idade da Pedra Lascada, quando surgiu a primeira ferramenta pré-humana, para vencer os 2.875.470 anos necessários para juntar os R$ 52 bilhões que os Marinhos acumularam em fugazes 48 anos, desde o advento da primeira TV Globo, em 1965.

Convertida para o dólar, a fortuna lascada de US$ 24 bilhões dos Marinho deixa seus competidores do setor de TV comendo pedra. O televangelista da prosperidade e bispo Edir Macedo, profeta da bíblica Rede Record, a segunda maior cadeia do país, tem uma riqueza avaliada em somente US$ 1,1 bilhão, um pouco menos abonado do que o homem que topa tudo por dinheiro, Silvio Santos, dono do SBT e um império de módicos US$ 1,3 bilhão. Os Marinho não temem paralelo nem com a família de Giancarlo Civita, dona de uma fortuna de apenas US$ 3,4 bilhões e herdeira da Abril, o maior grupo editorial da América Latina, que edita 54 títulos, 188 milhões de exemplares e sete das dez revistas mais vendidas do País – entre elas, Veja (tiragem: 1,2 milhão), a segunda maior revista semanal de informação do mundo, atrás apenas da americana Time (tiragem: 3,2 milhões).O Portal iG acaba de fazer uma radiografia de quem manda no País, com o ranking dos “60 mais poderosos do Brasil”. O terceiro da lista é Roberto Irineu Marinho, que perde apenas para dois nomes tecnicamente miseráveis perante sua fortuna: Dilma Rousseff, a no 1, e Luiz Inácio Lula da Silva, o no 2. Os bilionários que ousam ter mais dinheiro que o chefe do clã Marinho carecem de algo que o iG destaca, com perfeição: “Todos reúnem riqueza, prestígio, poder, mas nenhum deles tem o condão de influenciar a opinião pública, induzir costumes e padrões de comportamento e moldar parte expressiva da cultura nacional (como Roberto Irineu)… Quantas outras corporações podem afirmar, com tanta certeza, que estão presentes em praticamente todos os lares brasileiros?”  

A lista de abastados da Forbes levanta a intrigante hipótese de que os Marinhos representam mais do que um recorde brasileiro. Eles são provavelmente a família mais rica do mundo inteiro no trepidante reino da mídia. Para quem duvida, basta lembrar que os US$ 24 bilhões do trio global somam mais do que o dobro dos US$ 11,2 bilhões do magnata australiano Rupert Murdoch, monarca de um império planetário onde, como na dourada era da rainha Vitória (1819-1901), o Sol nunca se põe. Apesar da onipresença mundial, Murdoch vale, como fortuna pessoal, apenas meio Marinho.

Em receita publicitária, segundo o Top Thirty Global Media Owners, levantamento de 2011 do grupo ZenithOptimedia, a rede dos Marinho é o 17o maior grupo de mídia do mundo, com faturamento de US$ 4,7 bilhões (o líder, claro, é o Google, com US$ 37,9 bilhões, 49% da publicidade na internet de todo o planeta). Com esses números vistosos, é fácil entender o sorriso cativante que domina o trio que comanda a Rede Globo – e justifica, em parte, o mea culpa que a família adota, agora, para um aggiornamento exigido pelos tempos de transparência obrigatória e crescentes demandas de uma opinião pública pulverizada e excitada pelas redes sociais cada vez mais ativistas. 

 Com todo este presente, e ainda mais com todo aquele passado, não é difícil entender a carranca que domina o trio de comandantes do Exército, Marinha e Aeronáutica. Parecem assombrados por um passado que eles fingem desconhecer e reféns de uma absurda solidariedade corporativista para com os abusos de uma geração de camaradas da ditadura que devia ser segregada, não protegida, em nome da história e da dignidade das Forças Armadas da democracia.

Os dois trios comandam tropas diferenciadas, no tamanho e nos propósitos, mas sempre com poder de fogo respeitável. O exército das Organizações Globo mobiliza 24 mil pessoas, com um orçamento estimado no ano passado em mais de US$ 5,8 bilhões (a britânica BBC, a mais extensa rede mundial, tem 23 mil funcionários e um orçamento de US$ 8,1 bi). As Forças Armadas brasileiras somam, em seus três ramos, um efetivo de aproximadamente 330 mil homens na ativa, a maior força militar do continente, com um orçamento de US$ 33,1 bilhões, segundo o livro do ano de 2013 do respeitado Stockholm International Peace Research Institute (SIPRI). Esse número garante ao Brasil o 11o lugar entre as 15 nações com maiores gastos militares em um mundo que torrou US$ 1,75 trilhão com Forças Armadas (os Estados Unidos, responsáveis sozinhos por 39% dessa despesa, investem US$ 682 bilhões para manter sua máquina de guerra). 

Mesmo na democracia, que os colocou no devido lugar a partir de 1985, os militares brasileiros não podem reclamar. O Brasil da ex-guerrilheira Dilma gasta hoje 1,5% do PIB com o orçamento militar, mais do que os ricos Japão (1,0%), Canadá (1,3%) e Alemanha (1,4%).  Ao longo da história, contudo, os militares saíram de uma posição meramente moderadora para um protagonismo mais incisivo. Nos 67 anos do Império brasileiro (1822-1889), não houve nenhuma intervenção militar contra o monarca. Nos 75 anos iniciais da República, entre 1889 e 1964, as Forças Armadas produziram quatro golpes de Estado. Dois modernizaram a Nação (1889, proclamando a República, e 1930, na revolução que derrubou a Velha República), um derrubou um regime autoritário (1945, com a queda do Estado Novo) e o último instituiu a mais longa ditadura (1964, com a queda de Goulart).

Resposta antecipada

No dia seguinte ao golpe, 2 de abril, lá estava O Globo do “doutor” Roberto Marinho saudando o pronunciamento militar: “Ressurge a Democracia!”, festejou em editorial. Em um trecho, tentava dar o amparo do Art. 176 da Constituição para o ato de força, definindo as Forças Armadas: “São instituições permanentes, organizadas com base na hierarquia e na disciplina, sob a autoridade do presidente da República E DENTRO DOS LIMITES DA LEI”. Assim mesmo, em maiúsculas de tom quase verde-oliva, para camuflar a violência e vender a ideia de que o fora da lei era o presidente Goulart. A filigrana dos “limites da lei” foi mantida na circular “reservada” que o chefe do Estado-Maior do Exército (EME), general Humberto Castelo Branco, mandou a todos os generais no dia 20 de março, 11 dias antes do golpe de 1964. Em tom insurrecional, aquele que seria dias depois o primeiro presidente do regime militar cometia ousadias políticas que excediam os “limites da lei” que um general disciplinado deveria defender: “A ambicionada constituinte é um objetivo revolucionário pela violência com o fechamento do atual Congresso e a instituição de uma ditadura… Pode-se perguntar: o povo brasileiro está pedindo ditadura militar ou civil e constituinte? Parece que ainda não”.

LEGADO Roberto Marinho, com o general Figueiredo, e os herdeiros da organização que fez a mea culpa

LEGADO Roberto Marinho, com o general Figueiredo, e os herdeiros da organização que fez a mea culpa

Apesar da resposta antecipada, e sem perguntar nada ao povo, ele assumiu em 31 de março o comando da ditadura militar que o povo brasileiro não pedia. A circular “reservada” do chefe do EME tinha 54 linhas e 645 palavras, bem mais alentada do que o discurso de Abraham Lincoln pronunciado em Gettysburg, em 19 de novembro de 1863, com enxutas 17 linhas e 271 palavras. O texto público do presidente americano era uma ode ao “governo do povo, pelo povo, para o povo”. A circular “reservada” do general brasileiro, não.

A conta da ditadura de 21 anos prova que ela atuou sem o povo, apesar do povo, contra o povo. Foram 500 mil cidadãos investigados pelos órgãos de segurança; 200 mil detidos por suspeita de subversão; 50 mil presos só entre março e agosto de 1964; 11 mil acusados nos inquéritos das Auditorias Militares, cinco mil deles condenados, 1.792 dos quais por “crimes políticos” catalogados na Lei de Segurança Nacional; dez mil torturados nos porões do DOI-CODI; seis mil apelações ao Superior Tribunal Militar (STM), que manteve as condenações em dois mil casos;  dez mil brasileiros exilados; 4.862 mandatos cassados, com suspensão dos direitos políticos, de presidentes a governadores, de senadores a deputados federais e estaduais, de  prefeitos a vereadores; 1.148 funcionários públicos aposentados ou demitidos; 1.312 militares reformados; 1.202 sindicatos sob intervenção; 245 estudantes expulsos das universidades pelo Decreto 477 que proibia associação e manifestação; 128 brasileiros e dois estrangeiros banidos; quatro condenados à morte (sentenças depois comutadas para prisão perpétua); 707 processos políticos instaurados na Justiça Militar; 49 juízes expurgados; três ministros do Supremo afastados; o Congresso Nacional fechado por três vezes; sete assembleias estaduais postas em recesso; censura prévia à imprensa, à cultura e às artes; 400 mortos pela repressão; 144 deles desaparecidos até hoje.

São fatos da história, que a Globo hoje diz reconhecer como uma dura verdade, mas que os generais ainda insistem em ignorar. Fizeram tudo aquilo e fingem que nada fizeram ou nada têm a desculpar. Tanto que, no início de 2011, o jornal O Globo revelou ao País um espantoso documento enviado pelos chefes militares ao ministro da Defesa criticando a discussão em torno da futura Comissão da Verdade. Usavam a borracha do tempo para tentar apagar o passado: “Passaram-se quase 30 anos do fim do governo chamado militar…”, gaguejaram os três comandantes das Forças Armadas no texto, escancarando a patológica dificuldade dos generais para identificar o “chamado governo militar” por sua denominação mais correta e menos cínica – uma ditadura, nua e crua.

A voz mais trovejante na defesa dos quartéis é um general de pijama, Leônidas Pires Gonçalves, 92 anos, ministro do Exército do governo Sarney, que amplificou as críticas que seus companheiros da ativa não podem fazer a uma possível revisão da Lei da Anistia, que garante impunidade aos torturadores: “Se quiserem fazer pressão no Supremo Tribunal Federal, o Poder Moderador tem de entrar em atuação no País”, disse o general em tom de ameaça, em maio de 2012, à repórter Tânia Monteiro, de O Estado de S.Paulo. O pândego ex-ministro não fazia, aqui, uma menção nostálgica à bonomia dos monarcas da Casa de Bragança, que ocupou no Império brasileiro a posição de árbitro entre os poderes para dar estabilidade política à Nação, até o advento da República. Debochado, Leônidas não clamava pelo império da moderação, mas brandia a ameaça da república da repressão, que quebrou a ordem constitucional em 1964 e impôs a anarquia ilegal da ditadura imoderada que prendeu, torturou, matou e desapareceu com seus opositores mais radicais.

Vala comum do arbítrio

Em abril de 2010, Leônidas chegou às raias do atrevimento, numa polêmica entrevista a Geneton Moraes Neto, da GloboNews. Deu ali uma inusitada definição para sua profissão: “O soldado é um cidadão de uniforme para o exercício cívico da violência”. Sem explicar onde escavou esse raciocínio que nivela todos os exércitos pela vala comum do arbítrio, o general ignorou os exemplos na história de forças armadas que se mobilizaram pela preservação de valores perenes da democracia e da civilização.

Um exército, esqueceu Leônidas, pode ser a reunião de homens fardados que lutam pelo exercício da liberdade contra o nazifascismo, como ocorreu com a FEB na Segunda Guerra Mundial. Pode, também, ser a força armada que se levanta em defesa da Constituição pela posse de João Goulart na Presidência, como fez o III Exército em 1961 ao cerrar fileiras com o governador Leonel Brizola e o povo gaúcho na vitoriosa Campanha da Legalidade. A força militar pode igualmente se alçar pela afirmação da autoridade constitucional do presidente, como fez o marechal Henrique Lott para sufocar a quartelada golpista de 1955 que tentava bloquear a posse de Juscelino Kubitschek. 

Tiro e chocolate

A crença de Leônidas na violência cívica ainda hoje o faz duvidar do assassinato do jornalista Vladimir Herzog sob torturas no DOI-CODI de São Paulo, em 1975: “Eu não tenho convicção de que Herzog tenha sido morto… Um homem não preparado e assustado faz qualquer coisa. Até se mata”, filosofou na entrevista a Geneton Moraes Neto. O general sabe discernir muito bem o civismo alternado que trafega nos porões da repressão: “Na hora de dar chocolate, não se dá tiro. E, na hora de dar tiro, não se dá chocolate”.

PORTA-VOZ O general Leônidas e a república dos tanques: o “Poder Moderador” já fechou o Congresso três vezes

PORTA-VOZ
O general Leônidas e a república dos tanques: o “Poder Moderador” já fechou o Congresso três vezes

Durante quase três anos de uma fase turbulenta da ditadura, de abril de 1974 a fevereiro de 1977, Leônidas foi o chefe do Estado-Maior do I Exército, sediado no Rio de Janeiro. Como tal, era o comandante imediato do DOI-CODI baseado no quartel da Polícia do Exército na afamada rua Barão de Mesquita, um dos endereços mais sinistros da repressão no Brasil. Quando o quartel general do I Exército esteve sob o comando do general linha dura Sylvio Frota, entre julho de 1972 e março de 1974, conforme apurou O Globo, o DOI-CODI carioca era um centro de morte. Naquele espaço de 21 meses morreram 29 presos em suas masmorras, então sob a administração do notório major Adyr Fiuza de Castro. Pois bastou que ele chegasse ali em abril de 1974, disse Leônidas, e a paz dos anjos se instalou naquele antro de terror. “Não houve tortura na minha área”, jurou o general na GloboNews.

golpe-11Ao O Estado de S.Paulo, em 2012, em tom de desafio, o general exibiu as travas dos coturnos para se eximir: “Nunca apareceu nada, nem ninguém, que tivesse alegado ter sido torturado. Eu já desafiei que alguém se apresentasse na TV e nunca apareceu nada”. Não apareceu, talvez, porque os desaparecidos jamais reapareciam. De acordo com o Dossiê Ditadura – Mortos e Desaparecidos Políticos no Brasil 1964-1985, publicado em 2009, a lista oficial de 138 desaparecidos políticos no País registrava 31 nomes que se evaporaram no Rio de Janeiro entre 1970 e 1978. Desses, seis desapareceram justamente nos anos de 1974 e 1975, quando o DOI-CODI do Rio estava sob o comando direto do general Leônidas. Integram a lista Armando Teixeira Frutuoso, Fernando Augusto Santa Cruz Oliveira, Jayme Amorim Miranda, Orlando da Silva Rosa Bonfim Júnior, Thomaz Antônio da Silva Meirelles Neto e Eduardo Collier Filho.

Em 1971, quatro anos antes de o general assumir o I Exército, sumiram outros dez militantes da lista de 31 desaparecidos do Rio, incluindo o deputado Rubens Paiva e Stuart Edgar Angel Jones, 26 anos, filho de Zuzu Angel. A estilista de renome nos Estados Unidos, passou os cinco anos seguintes denunciando ao mundo a responsabilidade direta da ditadura brasileira no desaparecimento de Jones, visto na base aérea do Galeão sob torturas aplicadas pelo CISA, o serviço secreto da Aeronáutica.

Incansável, Zuzu buscou a verdade até a madrugada em que o carro que dirigia sozinha, um Karmann Ghia, capotou no túnel Dois Irmãos e despencou na ladeira da Estrada da Gávea, matando-a na hora – um acidente forjado pelo DOI-CODI carioca, conforme denúncia do ex-delegado Cláudio Guerra no livro Memórias de uma Guerra Suja. Em 14 de abril de 1976, data da morte de Zuzu Angel, o DOI-CODI do I Exército estava sob a responsabilidade do general Leônidas. Uma semana antes do acidente, Zuzu deixara na casa do compositor Chico Buarque de Holanda um documento em que escreveu: “Se eu aparecer morta, por acidente ou outro meio, terá sido obra dos assassinos do meu amado filho”.

(cont.)

Leia a reportagem na íntegra na edição 78 da Revista Brasileiros, já nas bancas!

Link curto: http://brasileiros.com.br/e3nyT
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  • Manfredo

    João Goulart, um bosta vermelho! Um merda cachaceiro desprovido de um mínimo de caráter. Um entreguista de carteirinha que estava arrastando o país aos grilhões totalitários. Se não fosse os militares da época, você, seu imbecil!, a essas horas estaria com a boca cheia de pasto! Hoje estaríamos “curtindo” uma ditadura cubana. Vá se lascar, seu idiota!

  • Sergio Campos

    Pela primeira vez li a revista, adorei a reportagem da Fabiana Caso do estúdio de Berlim, do bom senso e da excelente reportagem de Gonçalo Junior sobre a Hilda.

    Quanto a linha esquerdista da revista não me importa, porém a reportagem demonizando a contra revolução de 1964 extremamente radical, de fato os militares abusaram da força e injustamente em muitas ocasiões, porém os terroristas dos quais se incluem a sua presidenta assaltaram, mataram e barbarizaram com suas bombas, pelo que entendi nos balanços de perdas, 300 X 100, tudo muito triste porque deveríamos ser todos irmãos. Sim João estava levando o país a um Cubalização e os terroristas queriam implantar a Ditadura do Proletariado, se não acredita assista ao vídeo do link abaixo.
    A anistia perdoou os dois lados, os terroristas receberam polpudas indenizações e são nossos governantes e para os militares criaram a tal comissão da verdade para os punir, acredito que isso não vai acabar bem. Não sei até quando aceitarão as humilhações.
    Parabéns pela revista>
    Links:
    https://www.youtube.com/watch?v=ND0KYZbYBc4
    https://www.youtube.com/watch?v=38kwGdA5WR4
    https://www.youtube.com/watch?v=311w66Zpyuw

  • Marcio M. Pereira

    -CNV-Os restos mortais do presidente João Goulart (1919-1976), exumado de seu túmulo em São Borja (RS) para uma perícia internacional que poderá elucidar dúvidas sobre sua morte.
    -DILMA JOGOU A BOMBA SOBRE O SOLDADO MÁRIO KOSEL FILHO – A CNV VAI TIRAR A LIMPO!!! VERDADE???
    -É como a própria Presidente Dilma já disse: O PASSADO, PASSOU!
    -Cuidemos do presente que é latente: Quanta benevolência para os irmãos “CASTROS”,
    Esqueci-me, eles não são brasileiros e nem sabem o que é essa tal de CNV.