Destaque da edição de novembro, o escritor português José-Manuel Diogo lança livro sobre as ações das principais agências de espionagem do mundo

15-10-2013: O escritor Portugues Jose-Manuel Diogo. Foto: Luiza Sigulem
O jornalista e escritor português José-Manuel Diogo esteve no Brasil, em outubro último, para o lançamento de seu mais recente livro As Grandes Agências Secretas – os Segredos, os Êxitos e os Fracassos dos Serviços Secretos que Marcaram a História (primeiro título da nova Editora Via Leitura). Publicado em 2012, em Portugal, o livro é resultado de mais de dois anos de pesquisas, que envolveram dados revelados por fontes das seis maiores agências secretas do mundo – a americana CIA, a russa KGB, a israelense Mossad, a francesa DGSE, a britânica MI6 e a portuguesa SIS. Na edição brasileira, também foram incluídas operações das agências de espionagem da China (MMS) e de dois países emergentes, Índia (RAW) e Paquistão (ISI). 

Dias antes de sua vinda ao Brasil, em artigo publicado no site da revista eletrônica Conjur (sigla para Consultor Jurídico), Diogo foi enfático ao dar ao texto o provocativo título Brasil, um Gigante com Espiões de Barro. Para o escritor – que engavetou o diploma de engenharia mecânica para tornar-se repórter da rádio da faculdade e foi um dos idealizadores do curso de Jornalismo da Universidade de Coimbra, em 1992 –, a presidenta Dilma Rousseff precisa reparar um déficit comprometedor e dar ao Brasil um serviço secreto à altura da ascensão econômica, que elevou o País ao posto de 7a potência mundial. “Há de se perguntar por que a presidente põe agora a culpa na sua agência secreta, quando antes nunca se preocupou com ela? Que passos devem ser dados para que a espionagem brasileira também esteja ao mais alto nível mundial?”, questionou o português no artigo.

Na entrevista a seguir, o escritor dá algumas pistas das escolhas que deverão ser tomadas pela presidenta Dilma e também expõe fragilidades primárias de nossas agências.                                                           

Brasileiros – Na edição brasileira de seu livro, foram incluídas as agências paquistanesa, indiana e chinesa. Por que fez essa escolha?
José-Manuel Diogo – Quis fazer um livro que concentrasse fatos comprovadamente históricos sobre as agências secretas, não só as do Ocidente, que foi o foco da edição portuguesa, mas, no caso da edição brasileira, do mundo todo. O Brasil tem, hoje, uma posição geopolítica que muitos países da Europa, no atual contexto de crise econômica, não têm mais. Com o acréscimo dessas agências, a edição brasileira é o mais completo livro com a história das agências secretas publicado até hoje em qualquer idioma.

Brasileiros – As recentes revelações de que o Brasil é alvo de espionagem internacional era algo previsível para o senhor?
J.M.D. – Lógico. Uma coisa é ser a 20a economia do mundo, outra é ser a 7a; outra, bem diferente, é ser hóspede de informações sobre os maiores acontecimentos mundiais, como os Estados Unidos, que detêm infinitos dados de milhões de usuários da internet. Uma coisa é ser anônimo e gostar de samba; outra é ser cidadão de uma economia que colide com os interesses dos outros países.

Brasileiros – Portanto, a despeito do constrangimento diplomático enfrentado por Obama, os EUA e outros países, continuarão espionando o Brasil?
J.M.D. – Certamente. Vão procurar saber tudo o que puderem. E a coisa complica mesmo quando o Brasil se posiciona no meio do mapa geopolítico como a 7a economia do mundo e tem a septuagésima agência de informação.

Brasileiros – Nossos serviços de inteligência estão, assim, tão despreparados?
J.M.D. – A ABIN não têm expressão e escancara sua fragilidade. Lembro que li uma nota endereçada à imprensa, assinada pelo diretor da ABIN, na qual ele dizia que, em 2009, o orçamento da agência secreta brasileira seria pífio, de R$ 340 milhões, dos quais apenas R$ 40 milhões seriam direcionados à informação. É uma verba muito tímida. 

Brasileiros – E qual pode ser o impacto negativo para a presidenta Dilma, se não tomar ações, enérgicas e imediatas?J.M.D. – O crescimento do Brasil é muito expressivo, mas ele ainda é uma jovem democracia, de maneira que as pulsões eleitoreiras ainda são muito mais fortes aqui do que nos outros países. A pauta da espionagem sobre o Brasil continuará muito quente nos próximos meses, e também no próximo ano, porque ela interessa à presidente Dilma. Interessa a essa lógica eleitoreira criar um problema que possa ser resolvido. E esse é dos poucos problemas que Dilma encontrará eco na opinião pública e poderá solucionar. Faz parte dessa estratégia a operação que, agora, está sendo feita nos e-mails do governo federal, como também será decisiva a conferência que ela vai realizar no Brasil em 2014, para discutir segurança de dados. Toda essa narrativa é muito favorável a Dilma.

Brasileiros – E demandará dela também um aporte bem mais expressivo de recursos destinados à ABIN…
J.M.D. – No próprio site da ABIN, no link de notícias, recentemente havia uma nota da assessoria de imprensa que dizia algo como: “Infelizmente, o programa de recrutamento de 240 agentes foi recusado pelo governo federal”. Em uma democracia, devemos utilizar a informação a nosso favor e o governo federal está dizendo que terá máxima disposição para resolver esses problemas de espionagem, mas a própria ABIN expõe suas deficiências.

Brasileiros – Como é possível mensurar um orçamento ideal para as operações da agência secreta brasileira?
J.M.D. – Você está querendo saber quanto dinheiro Dilma precisará gastar? A pergunta central para se chegar a esse número é: mas o que é que temos de proteger? Dez por cento do PIB é quanto o Estado de Israel entrega para a Mossad (de acordo com o PIB de 2012, algo em torno de R$ 50 bi). Mas há situações muito específicas entre os dois países. Israel vive conflitos históricos há décadas. No Brasil, o que penso é que deve ter alguém, independentemente do quadro político que garanta aos cidadãos brasileiros e à comunidade internacional uma solidez e uma credibilidade que infelizmente se perderam com esses episódios recentes, primeiro, com o Obama e, depois, com o governo canadense. Fazendo um pouco de teoria da conspiração, algo fundamental para as agências secretas, pense na estratégia dos canadenses: vai haver leilões de empresas brasileiras de mineração que interessam a eles e, se o mundo souber que elas não protegem devidamente suas informações, quanto menos valor terão tais mineradoras? O mesmo vale para o trabalho das secretas. Se a atuação das agências e dos espiões chega à grande imprensa, como no caso dos americanos e dos canadenses, é porque algo deu errado, algo que não deveria ter acontecido aconteceu, pois as agências falam à imprensa somente o que as interessa.

Brasileiros – A propósito, até que ponto a imprensa é também uma fonte confiável para as investigações que o senhor faz?
J.M.D. – Utilizo um aplicativo que reúne jornais impressos, do mundo todo, chamado Press-Reader, que agrega PDFs e cruza informações de mais de três mil periódicos. Considero uma fonte confiável, pois o que sai na internet, geralmente, não tem muito valor e não é facilmente demonstrável como prova. O material impresso implica responsabilidade de alguém que permitiu que ele fosse publicado. A grande diferença da informação impressa para aquela publicada na internet é que na impressa há, fisicamente e muito mais facilmente identificável, alguém que é criminalmente punível, de acordo com as leis de cada país, e será responsável por aquilo que foi gasto em tinta no papel.

Brasileiros – E como é que o senhor pode atestar a veracidade dos dados que publica?
J.M.D. – Se não for possível cruzar informações que comprovem tal veracidade, eu não publico. Tem de haver ao menos três fontes que digam exatamente a mesma coisa. Esse é o meu filtro. Posso assegurar que é tudo verdade? Lógico, não posso. Rafael Eitan, um grande agente da Mossad, certa vez disse: “Nossa missão é criar a história e logo a seguir ocultá-la”.

Brasileiros – Aliás, é presumível que, ao contrário da ABIN, muitos serviços de inteligência funcionem em total anonimato…
J.M.D. – Algumas agências secretas históricas operaram, por décadas, no mais pleno anonimato. O MI6 britânico, por exemplo, só foi reconhecido publicamente 80 anos depois de ter sido criado. No final dos anos 1980, Margaret Thatcher foi a público admitir: “É verdade, existe no SIS (Secret Intelligence Service), uma célula chamada Military Inteligence 6”. Hoje, por exemplo, qual é a agência secreta da Alemanha? Ninguém sabe, mas, lógico, ela existe.  

Brasileiros – Com o histórico sombrio dos 21 anos de ditadura, boa parte da opinião pública brasileira ainda associa serviços secretos de informação com expedientes do regime. Como o governo deve lidar para dissociar uma coisa da outra?
J.M.D. – Em Portugal aconteceu algo parecido. Em tempos de ditadura, aquilo que vivenciamos fica numa altura da história que a gente não quer recordar. A própria Comissão da Verdade começou tardia e só existe para que se possa admitir que houve tortura, mas não para punir alguém. O mesmo aconteceu em Portugal depois do fim da ditadura Salazar. O que sobrou da SIS, nossa polícia secreta, ninguém mais quis ouvir falar durante anos. Mas há, agora, para os brasileiros, uma oportunidade de refundação, de formar novos espiões, como também houve essa guinada para os espiões portugueses. O espião com perfil de funcionário público que, enquanto policial age como bom malandro, espiona e faz perguntas com armadilhas, já era. Os novos espiões são jovens, falam diversas línguas, são de religiões mistas, têm uma perspectiva global da realidade. Quando a inteligência do Brasil for também uma ameaça para as outras potências econômicas, com o poderio que o Brasil tem, o País vai impor às outras nações que o respeite. Para tanto, é preciso uma agência de informação forte, que produza informações essenciais, mas que também não seja vulnerável à contraespionagem, para não acontecer com o Brasil o que aconteceu com o Canadá e EUA. Não faz o menor sentido o chefe de Estado da maior potência do mundo permitir que saiam notícias afirmando que ele está espionando o Brasil.

Brasileiros – A presidenta Dilma acertou em cancelar o encontro que teria com Obama?
J.M.D. – Respondo em termos diplomáticos, pois não quero fazer esse tipo de julgamento. Penso que há uma nova geração de políticos que ascenderam ao poder pela simples prática partidária e não pelo exercício do estadismo. Nas novas democracias, nas quais incluo o Brasil, os governantes que estão hoje no poder têm pouquíssima formação e experiência em diplomacia internacional. E é justamente a falta de preparação que faz grandes lideranças tomar decisões que, em vez de serem estratégicas, provocam danos. A diplomacia política sempre foi e sempre será a arte do possível. Gostaria de estar enganado, mas penso que as gerações das guerras preparavam melhores políticos que as gerações da paz. 

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