A partir de samples e colagens de registros orgânicos, Guilherme Kastrup cria bom álbum autoral

Revista BrasileirosKastrupismo, título autorreverente do primeiro álbum de Guilherme Kastrup, baterista, percussionista e produtor carioca radicado em São Paulo há 20 anos, é para lá de justo. Partindo de colagens de “células” musicais produzidas em seu estúdio, Toca do Tatu, ele obteve resultado de grande personalidade. Produzido sem pressa, nos últimos dez anos, o disco é composto de 12 temas, que sugerem paisagens sonoras interligadas à fluidez de uma suíte musical.

Filho de um casal de biólogos apaixonados por música, Kastrup enveredou pelos estudos ao formar, aos 15 anos, uma banda imaginária de heavy metal. No conjunto fictício, seria o baterista. Converteu a possibilidade em fato, ao seguir conselho oportuno dos pais: ganharia a primeira bateria somente após descobrir se tinha ou não vocação. No Conservatório Musical Villa-Lobos, conteve a ânsia e só foi pegar em um par de baquetas seis meses depois de muita teoria. A paixão por Black Sabbath e Led Zeppelin fez surgir a tão sonhada banda, de vida breve, Santo Graal.

Na Universidade Estácio de Sá, onde bacharelou em Música, Kastrup expandiu horizontes ao integrar uma big band chamada Balança & Dança. Foi nela que aprofundou pesquisas sobre o rico universo percussivo brasileiro e decifrou gêneros como o jongo, o congado, o coco, o maracatu e a capoeira. Na divisa dos anos 1990 para 2000, já morando em São Paulo, ele passou a se interessar por percussão eletrônica e estudar processos de gravação. Em 2003, Kastrup comprou os primeiros softwares de áudio e um instrumento divisor: o sample MPC, da japonesa Akai, fundamental para seu primeiro disco. No trajeto, consolidou-se requisitado músico profissional que, até o momento, integrou mais de 150 álbuns. Entre os quais, obras autorais de Adriana Calcanhoto, Arnaldo Antunes, Chico César, Elba Ramalho e Vanessa da Mata. Como produtor assinou mais de 20 títulos, entre eles álbuns celebrados, como Ilha do Destino (2002), do pernambucano Ortinho; Vol. I (2007), a estreia da cantora Andreia Dias; A Vontade Superstar (2009), que trouxe à tona as belas canções de Bruno Morais; e De Pés no Chão (2012), segundo álbum de Márcia Castro. 

Para, enfim, dar voz à própria produção, Kastrup abusou das colagens orgânicas de bases feitas por músicos que passaram pelo Toca do Tatu. Também registrou, via sample, canjas de convidados especiais, como o mestre Cartola, que inspirou o tema Tá Maluco, Rapaz: “Numa entrevista para o programa Ensaio, ele conta como vendeu seu primeiro samba. Um amigo sobe o morro e diz: ‘Tem um cara querendo comprar um samba teu’. E ele: ‘O quê!? Tá maluco, rapaz?’. Ele conta a história de forma muito musical. Sampleei a entrevista, recortei a fala e comecei a fazer a música a partir do ‘Tá maluco, rapaz?’”.

O álbum teve acabamento de fino trato com a participação de amigos, como Zé Pitoco (clarinete e sax), Márcio Arantes (contrabaixo), Edgard Scandurra (guitarra e violão) e o pianista Benjamim Taubkin, presente em quase todas as faixas. O título surgiu de uma brincadeira feita pelo baiano Tom Zé, que escalou o músico para cinco de seus recentes álbuns e, certa feita, ao vê-lo lidando com suas percussões e parafernálias eletrônicas, disparou: “Pronto, começou o kastrupismo!”. Para Kastrup, até mesmo pelo sufixo “ismo”, o título remete a uma “doença crônica qualquer”. Que ela não tenha cura e renda álbuns tão saudáveis como esse.

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