Renato Borghetti, o gaiteiro mais popular do sul do País, monta uma fábrica de gaitas-ponto e ensina jovens a puxar o fole, indo da milonga ao baião

Puxando o Fole -Renato Borghetti toca, ensina e fabrica o instrumento que é a mãe dos acordeões, cordeonas e sanfonas

No ano em que completa seu cinquentenário (em 23 de julho), o músico gaúcho Renato Borghetti puxa o fole de um projeto cultural fora do comum: a Fábrica de Gaiteiros, escola de música que inclui, nos bastidores, uma indústria artesanal de gaita-ponto, a mãe dos acordeões, cordeonas e sanfonas. A seu modo de menino, o gaiteiro mais popular do Sul peleia para reabilitar o instrumento desprezado por escolas de música e cuja fabricação, no Brasil, parou por falta de encomendas.

Tocado em Guaíba, cidade de 100 mil habitantes à margem do grande lago que banha Porto Alegre, o projeto já está no quarto ano. Logo nas primeiras aulas, na Escola Estadual Augusto Meyer, não havia instrumentos para todos os alunos. Assim, brotou a ideia de fabricá-los em uma sala de fundos. No primeiro ano, em 2010, a equipe de Borghettinho conseguiu produzir uma única gaitinha de oito baixos que, afinal, se tornou o protótipo do modelo batizado com a própria marca Borghetti: um fole aberto, sobre o qual aparece o chapéu usado pelo gaiteiro no palco e no cotidiano. No segundo ano, fabricaram-se 16 gaitas. No terceiro, mais de 20. Numa conta por alto, o afinador Rogério Guimarães, 35, que gerencia a incipiente indústria guaibense, estima que já tenham sido feitas 60 unidades – nenhuma com fins comerciais, todas destinadas aos gaiteirinhos recém-formados. Registre-se que uma das gaitas foi levada pelo músico Eric Clapton, que a ganhou de presente do mentor do projeto.

Aí está o espírito do projeto, explicado pelo próprio autor: “De uns anos para cá, comecei a fantasiar que, no futuro, as pessoas chegariam ao Rio Grande do Sul e perguntariam: ‘Mas, bá, que lugar é esse onde todo mundo toca gaita?’. E a resposta: ‘Ah, isso foi ideia de um louco cabeludo chamado Borghetti’”.

Na fantasia dele, esses diálogos futuristas ocorreriam apenas no século 22. Mas, ultimamente, graças ao sucesso do projeto, o próprio Borghetti começou a achar que poderá testemunhar o fenômeno da reabilitação da gaita no estado, no curso dos próximos 50 anos.

O fato é que só tocar gaita não lhe bastava mais. Pai de cinco filhos, uns já adultos, outros ainda crianças, Borghetti deixou vir à tona o sonho que agora anima a família e os amigos. Como o filho Pedro, 18, que toca percussão e violão, cursa desenho industrial e já “viaja” no projeto. A filha Emily, arquiteta de 23 anos, encara a reforma do galpão comprado no início de 2013 para ser a sede própria do projeto.

Na fábrica – A linha de produção artesanal das gaitas-ponto.

Localizado na avenida praiana de Barra do Ribeiro, a cidade vizinha de Guaíba, também na beira do lago, o galpão tem espaço suficiente para abrigar a escola de gaiteiros, a fábrica de gaitas e até uma sala de concertos para uma centena de pessoas. Tudo mais ou menos “em casa”: perto dali, Borghetti possui um sítio, onde se refugia quando precisa repousar de sua ronda de espetáculos, geralmente concentrados em fins de semana.

“Sempre puxei o fole com força”, diz Borghetti, para justificar seu modo agitado de tocar e o ímpeto com que abraçou o projeto da academia de gaita. Segundo ele, a puxada forte gera um som maneiro, mas desregula facilmente o aparelho, sobretudo se for dos mais antigos. Descobriu isso criança ainda, quando ganhou do pai uma gaitinha Hering de dois baixos. Durante anos usou o instrumento para fazer ruído. Só por volta dos 14 anos, percebeu que podia tirar sons exclusivos da caixinha mágica. Foi quando começou a despontar como um gaiteiro de futuro.

Dois anos depois já tocava bem o bastante para integrar o conjunto musical da churrascaria do Centro de Tradições Gaúchas 35, em Porto Alegre. Ali, ele também se sentia em casa, pois o pai, advogado, era militante do tradicionalismo movimento que cultiva os costumes gaúcho-pastoris. Lá se vão mais de 30 anos.

Nascido e criado no bairro do Bom Fim, na capital gaúcha, Borghetti se impôs no cenário rio-grandense ao participar de um concorrido festival de música nativa em Uruguaiana, no início dos anos 1980. Ele guarda o recorte de um jornal que o saudou com a manchete Apareceu uma gaita!, novidade em uma região onde a tradição do instrumento parecia repousar apenas nas mãos do lendário Tio Bilia, que atravessou a maior parte do século 20 abraçado a uma oito baixos. Enquanto a maioria dos gaiteiros gaúchos se destacava usando o acordeão – caso de Teixeirinha e os Irmãos Bertussi –, o espaço da gaita-ponto estava praticamente desocupado.

Ligeiro no gatilho, Borghetti foi tomando conta dos palcos, sempre como gaúcho urbano à vontade: na cabeça, boina ou chapéu de copa baixa; nos pés, alpargatas ou sapatilhas de couro mole; no mais, camisa xadrez para compor com as bombachas desabotoadas nos tornozelos. Inicialmente festejado como mascote do ramo, ele acabou se firmando como a maior referência do gaitismo no Sul, recebido nos redutos musicais identificados com o nativismo. Tem amigos gaiteiros em várias cidades gaúchas, especialmente nas de colonização italiana, como Bento Gonçalves, onde existiam duas fábricas de acordeões.

Na escola – Renato Borghetti acompanha uma aula de Leonice Nobre

Nessa cidade de 70 mil habitantes na Serra Gaúcha, há uma espécie de confraria da gaita cujos membros, veteranos de indústrias extintas, faturam algum dinheiro consertando instrumentos de amadores e profissionais. Claro que alguns também fazem lá seus concertos em festas. Em qualquer dos casos, lavoram sem hora marcada para o fim do expediente.

Borghetti também é amigo de consertadores de gaita de Porto Alegre, aos quais recorria com frequência, quando puxava o fole na Churrascaria 35. De tanto correr atrás de reparos para suas gaitas, ele se tornou um aprendiz do ofício. Com Armando Bunge e Roni Tadeu, aprendeu que aos consertadores de gaita se pode pedir tudo, menos que tenham pressa ou deem prazo para a devolução do instrumento. É que olhando por fora nunca se sabe o estado de uma gaita por dentro. Ela pode estar com o fole vencido, o tecido roto, um arame quebrado. Pode ter botão descolado, madeira rachada, palheta desafinada.

Dentro das duas caixinhas unidas pelo fole existe um conjunto de materiais capaz de produzir som de gato ou de onça, sem bemol ou sustenido – essa a particularidade da gaita em relação aos acordeões: seus recursos são escassos, mas nas mãos de um gaiteiro inspirado ela pode embalar crianças e velhos com sua sonoridade. Tecnicamente mais pobre do que o acordeão, a gaita é um invento chinês aperfeiçoado no norte da Europa, de onde veio para o Brasil na bagagem de alemães e italianos.

Aqui, foi rápida sua difusão e alta sua popularidade, inclusive no Nordeste, onde predominam mestiços de português, negro e índio. “Alguns dos maiores sanfoneiros do Brasil – Luiz Gonzaga, Hermeto Paschoal e Sivuca – aprenderam a tocar em gaita-ponto”, diz Borghetti, destacando o alcance geográfico dos instrumentos de fole no Brasil. Sinal de que o povo se identifica com esse som.

Tem mais, lembra Borghetti: já houve no País mais de 20 fábricas de acordeões e similares, o que favorece a implantação do seu projeto. As últimas fábricas pararam faz pouco tempo, de forma que não é difícil encontrar material útil em cidades de colonização italiana. A única ativa é fruto de uma reciclagem: em Santa Rosa, a terra da Xuxa e dos tratores John Deere, um saudoso da gaita comprou equipamentos de fábricas extintas e organizou uma montadora de acordeões que vai em frente mudando de identidade. O primeiro nome (Danielson) foi trocado por Saporo, posteriormente substituído por Minuano, em uma alusão ao vento que sopra forte no inverno no Sul.

Se as fábricas fecharam, as marcas dos acordeões antigos podem ser lidas toda vez que se abre uma gaita em alguma festa: Hering, Scala, Todeschini, Veronese, Universal. Para que sigam vivas na memória dos brasileiros, basta que alguém tenha habilidade digital e força nos braços.

Embora não exista intenção comercial no projeto pedagógico-fabril de Borghetti, é possível que nos próximos anos a fábrica de Barra do Ribeiro/Guaíba dê o passo que falta para retomar a fabricação da gaita de botão no Brasil. Além de atrair parceiros públicos e privados*, o gaiteiro não hesita em colocar dinheiro do próprio bolso na compra de ferramentas para aprimorar o instrumento.

Para isso, conta com os recursos do Instituto Renato Borghetti (sua persona cultural) e com a simpatia que sua própria figura desperta onde quer que apareça. Em Timbó, Santa Catarina, uma indústria papeleira visitada por ele não hesitou em retomar depois de 20 anos a fabricação do papelão usado para fazer o fole das gaitas. A novidade foi registrada no próprio site da empresa.

Torcendo para que o projeto decole, outros fornecedores de componentes da gaita têm cedido o material sem cobrar. Eles prometem fixar custos mais tarde. Com a entusiástica adesão de uma centena de alunos e o pique dos componentes da fábrica de Guaíba**, não parece estar longe o dia da nacionalização completa da nova gaita gaúcha. Atualmente, apenas as palhetas de aço são importadas da Itália. Mas podem ser fabricadas no Brasil, por que não? “Há 50 anos, a Todeschini de Bento fabricava palhetas”, diz Borghetti, que mira nas italianas feitas em aço inox.

É um negócio delicado. Depois de cinco anos de parceria com a Scandalli, que desenvolveu um teclado especial a pedido do músico gaúcho, Borghetti ainda não conseguiu ter uma conversa conclusiva com os donos da fábrica de Castel Vidardo, perto de Ancona. Basta falar em palheta e o assunto morre. O segredo é a arma do negócio e a palheta, a alma da gaita. Se ensinar alguém, o fabricante pode estar construindo o próprio fim. 

Como está aprendendo a se mover no mundo dos fabricantes de instrumentos musicais, Borghetti toma cuidado para manter a parceria estratégica com os italianos. “Eles fizeram para mim a Ferrari das gaitas”, diz ele, sem negar o ímpeto de evoluir como redentor do instrumento no Brasil. Pelo ritmo da escola e da fábrica, não há dúvida de que pode chegar lá.

Em Guaíba, onde fica a escola-mãe do projeto, as aulas são dadas por Leonice Nobre, 38, que toca gaita desde criança e neste ano conclui o curso de Pedagogia. Feliz da vida, ela não dá conta da demanda e está preocupada em arranjar instrutores para as escolas de outras cidades onde o projeto está sendo implantado: Barra do Ribeiro, São Gabriel, Porto Alegre, Tapes e Rio Grande. 

Embora seja popular, a gaita é tocada por uma maioria de músicos intuitivos, que aprenderam por esforço próprio, com mestres eventuais e sem método didático. Como tocam por gosto, nas horas vagas e fins de semana, os gaiteiros amadores não têm tempo para se dedicar ao ensino, pois exercem outras profissões. Quanto aos profissionais, eles não têm agenda para o ensino, preferem levar vida de artista, tocando em bailes, festas, gravações e shows. No fundo, sonham virar um tipo famoso. Não foi o que aconteceu com aquele guri que tocava na churrascaria? Barbaridade! Não se duvide do poder de mobilização da música nem do charme rústico da gaita.  


* O principal patrocinador é a Celulose Riograndense, a maior indústria
de Guaíba, cuja ajuda custeia a compra da madeira especial de eucalipto cultivado no sul da Bahia pela Lyptus; também dão apoio as prefeituras,
o CIEE, o SESC e a Secretaria Estadual de Educação.

** Além do gerente Rogério Guimarães, a equipe é formada pelo eletricista André Figueira da Silva, 38, que toca a marcenaria; o montador
Everton Sarturi, 16, aprendiz na parte da manhã, compartilha
os equipamentos com o aprendiz vespertino Jéferson Palmeiro Fernandes,
ambos contratados em convênio com o CIEE.

Link curto: http://brasileiros.com.br/Byhry
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  • nilson lorinei da silva

    gostaria de aprender a tocare a diquirir o instrumento.È posivel

  • jair aguiar

    Borguete. Quanto custa uma gaita com 3 ilheiras , 40 baixos e 7 registros. Afinação em sol.
    É difícil de conseguir uma nestes moldes? Procuro uma assim pro meu filho de 14 anos que quer aprender a tocar.
    Grande abraço

  • ivom ramos de paiva

    legal oseu trabahlo.amigo Borguetinho tenho um sonho enconprar um acordion de botâo você vende.

  • Italo Oliveira

    Resido no RN, na simetria do RS, e gostaria de saber o custo para aquisição de uma gaita ponto, marca “BORGHETTI”, lógico. Parabenizo o projeto, pois também acredito nessa fantástica obra. Não sou gaúcho, porém sinto-me orgulhoso.

  • João Fernandez

    Gostaria de saber quanto custa e como comprar uma gaita ponto “BORGETTI”.
    Obrigado.
    João Fernandez

  • Hudson Sales

    Esse é um projeto que deve ser apoiado pelos governos, empresas e população em geral. Admirável! Parabéns aos seus idealizadores!

  • Felipe Martins

    Tenho um filho de 03 anos que gostaria de colocar no futuro em uma desta escolas de gaiteiros,esse projeto é fantástico e enche o nosso peito de orgulho,parabéns a todos que tocam esse projeto,espero que o governo apoio ainda mais esse projeto.

  • Marcelo Avelino

    Quanto custa o fole de 8 baixos?
    Grato;
    Marcelo Avelino