Com nome da ave de rapina dos Andes, a operação clandestina que uniu ditaduras militares do Cone Sul para perseguir, capturar e até eliminar dissidentes políticos além das fronteiras foi criada pelo Brasil. Conheça em detalhes a ação que deflagrou a rede ilegal de colaboração – o sequestro do coronel Jefferson Cardim de Alencar Osório em Buenos Aires e sua volta forçada para o Rio de Janeiro

A Operação Condor foi criada no Brasil. Uma colaboração clandestina entre os países do Cone Sul, sem reconhecimento de soberanias diplomáticas e ignorando leis, documentos, fronteiras e pedidos oficiais; levada a cabo para capturar e destruir, com violência, fugitivos políticos ou exilados. Desde o início o Brasil agiu como ator principal.

O macabro sucesso das primeiras atividades dessa colaboração entre os governos tornou a operação mais sofisticada. Formou-se uma rede tentacular de práticas ilegais e subversivas, grupos paramilitares e clandestinos que abusavam do poder, praticando crimes, sequestros, torturas, prisões, assassinatos e terrorismo oficial de Estado.

Em novembro de 1975, na Academia de Guerra do Exército em Santiago do Chile, realizou-se uma reunião que contou com representantes da Argentina, Bolívia, Paraguai, Uruguai e do próprio Chile. O Brasil estava lá, mas seus dois representantes receberam ordens de se colocarem apenas como observadores. Eram eles os agentes do Centro de Informações do Exército Flávio de Marco e Thaumaturgo Sotero Vaz. Ali, a Operação Condor ganhou nome, certidão de nascimento, pais e padrinhos. Existem, no entanto, provas de que essa integração entre os governos – ou seus subterrâneos, que se preparavam para assumir o comando por meio de golpes – já acontecia cinco anos antes da famosa reunião.

Uma dessas provas foi trazida a público pelo presidente do Movimento de Justiça e Direitos Humanos, Jair Krischke: o Informe 338, de 19 de dezembro de 1970, do Adido do Exército à Embaixada do Brasil na Argentina, protocolado na Agência Central do Serviço Nacional de Informações com o número 001061, em 20 de janeiro de 1971. Esse documento relata o sequestro, em Buenos Aires, de um dos militares brasileiros mais odiados pela velha guarda da ditadura: o coronel Jefferson Cardim de Alencar Osório. Mostra também como foi montado todo o esquema para trazê-lo de volta ao Brasil.

A possibilidade de que a prisão do coronel Jefferson Cardim fosse, de fato, o início da operação já havia sido levantada pelos jornalistas Darío Pignott, do jornal argentino Página 12, que localizou o Informe 338; e Roger Rodríguez, da revista uruguaia Caras y Caretas. Brasileiros teve acesso aos diários do coronel e traz agora os detalhes, atores, diálogos e segredos do primeiro ato da Operação Condor.

Sexta-feira, 11 de dezembro de 1970. Para o coronel Jefferson, seu último dia de exílio no Uruguai. Ele aceitara o convite que o então candidato à presidência do Chile, Salvador Allende, lhe fizera quando se encontraram em Havana. O chileno queria que Jefferson trabalhasse em seu governo, no cargo de assessor militar para a Associação Latino-Americana de Livre-Comércio (ALALC).

Ao contrário de suas viagens anteriores, dessa vez Jefferson não iria de avião. Sairia de Montevidéu até Colônia do Sacramento e atravessaria o rio da Prata até Buenos Aires. Seguiria para Mendoza. Manteria contatos políticos, e de lá alcançaria a capital chilena. Faria o trajeto junto com seu filho mais novo – que tinha 18 anos e também se chamava Jefferson, mas era tratado como Jeffinho pela família –, e de Eduardo Lopetegui, de 20 anos, um sobrinho uruguaio que aproveitava a carona do tio para conhecer seus parentes no Chile. Essa seria a primeira parte da mudança. Depois das festas, sua esposa, Rosa, a filha Sonia e o filho mais velho, Roberto, também se mudariam para Santiago.

Às nove da manhã, um Aero Willys vermelho, ano 1964, chapa 2346 de Porto Alegre; com Jefferson, Jeffinho e Eduardo sentados no banco da frente, deixa a casa da Calle Caraguatay, em direção à Ruta 1, a estrada de 177 quilômetros que liga Montevidéu a Colônia do Sacramento. Constantemente monitorado por agentes brasileiros e uruguaios, Jefferson não estranha quando vê, no retrovisor, uma viatura da polícia uruguaia. Percebe que está sendo seguido, mas, acostumado a ser vigiado constantemente, continua despreocupado. Seus vários documentos estavam em ordem. Cumprira toda a burocracia exigida pelos dois países. Além disso, fizera a mesma viagem havia quatro meses, de avião, sem sofrer qualquer incômodo.

Agente da Cia
Por volta do meio-dia, chegam ao porto de Colônia do Sacramento, o ponto uruguaio mais próximo de Buenos Aires. Para alcançar a capital argentina, bastava atravessar o rio da Prata em um ferry-boat da Companhia Argentina de Navegação Dodero. Uma hora depois, eles embarcam. Quase no mesmo momento, o adido militar brasileiro na capital argentina, o coronel de Cavalaria Nilo Caneppa da Silva, recebe a confirmação de que Jefferson e mais duas pessoas estavam no ferry-boat. A travessia durava cerca de três horas. Caneppa  pede imediatamente a cooperação da Direção de Coordenação Federal, órgão de inteligência da Polícia Federal argentina. Repassa, por telefone, todos os detalhes que permitiriam a identificação e prisão do grupo ao subcomissário argentino. Faz mais. Ele mesmo se dirige para o porto, a fim de conferir a ação dos colegas.

Assim que o ferry-boat alcança águas argentinas, os alto-falantes da embarcação chamam os passageiros, que devem formar, no salão principal do convés, uma fila de identificação para imigração. É lá que uma curiosa figura chama a atenção de Jefferson: um homem baixo, magro, com cabelos loiros que já se tornavam grisalhos e um rosto bem vermelho. Destaca-se também pela elegância, rara de se ver entre os demais passageiros. Não bastasse, ainda fuma um estranho cachimbo com uma haste de dez centímetros, bem fina, que terminava num fornilho pequeno.

Depois de passarem pela imigração, Jefferson, Jeffinho e Eduardo sobem para o convés superior. Carregam garrafas de uísque, cigarros e bombons comprados na loja do duty free da embarcação. Enquanto olham para a cidade que surgia no horizonte, um homem se aproxima e tenta, em espanhol com carregado sotaque uruguaio, puxar conversa:

– O senhor é brasileiro? São seus filhos?

Jefferson queria tudo, menos fazer um amigo naquele momento. Já está desconfiado do homem do cachimbo e o máximo que se permite são respostas monossilábicas. Mas o uruguaio não desiste. A “quase conversa” é interrompida pela passagem do homem do cachimbo. Jefferson desvia o olhar para acompanhá-lo. O uruguaio percebe… e se empolga:

– Esse aí é um argentino que é agente da Interpol e que, eu acho, também deve trabalhar para a CIA. Ele é destacado para atuar neste ferry.

Se o uruguaio queria atenção, conseguiu. Entusiasmado com o visível interesse de Jefferson, continua:

– Sei disso porque sou um policial aposentado e já fui chamado várias vezes pra trabalhar em Colônia.

São quase quatro da tarde. O ferry-boat se aproxima do cais de Buenos Aires. Os passageiros que foram de automóvel se preparam para o desembarque. Jefferson havia estacionado o seu Aero Willys atrás de uma caminhonete Simca, com placa de Curitiba, ocupada por um jovem casal.

A prancha do ferry se liga ao cais. Dois funcionários fazem a amarração. Começa o desembarque. O Simca segue em frente. Quando o Aero Willys ultrapassa a prancha, dois homens bem vestidos sinalizam para que Jefferson estacione ao lado da plataforma, perto do edifício da alfândega. Dois outros agentes saltam de um carro preto com chapa oficial do governo argentino. Ambos armados com Colt 45:

– É uma operação de rotina. Houve uma denúncia de transporte de drogas.

Do ferry-boat, surgem mais cinco policiais, que os acompanhavam desde Colonia. A rua fica tomada por carros da polícia argentina.

O oficial que parece liderar a ação abre a porta do Aero Willys e se dirige para Jeffinho e Eduardo, apontando para o carro preto:

– Passem pra lá.

Ele senta ao lado de Jefferson, que protesta. O agente argentino, irritado, aponta impacientemente sua identificação:

– Sou agente da Polícia Federal argentina. Meu chefe é o superintendente da Coordenação Federal e me deu ordem para levá-lo até ele.

Jefferson resiste:

– Sou um coronel reformado do Exército brasileiro. Estou indo para o Chile com meu filho e meu sobrinho. Minha documentação está em ordem.

O policial se torna agressivo:

– Não me interessa. Estou cumprindo ordem. Tenho de levá-lo. Não me interessa o motivo. E vou levá-lo.

Nilo Caneppa está conferindo a prisão e se mantém afastado do local de desembarque o suficiente para não ser visto. De lá, percebe que as informações que recebera estavam corretas. Bem escondido, observa toda a ação que ocorre com os dois carros estacionados ao lado do prédio aduana. O policial ordena que Jefferson deixe o Aero Willys e o acompanhe até a repartição de carros estrangeiros, localizada no térreo do prédio. Jeffinho e Eduardo continuam dentro do carro preto, vigiados por três outros policiais. Enquanto Jefferson preenche as fichas que lhe deram, o policial faz um telefonema. Eles voltam para o Aero Willys. Jefferson assume a direção, o policial ao lado, apontando a sua pistola 45:

– Siga o carro preto.

O adido militar brasileiro fica um pouco decepcionado com a atitude dos colegas portenhos. Tinha esperança de que eles seguiriam Jefferson para levantar os contatos que iria manter.

O Senhor quer um mate?
Durante o trajeto, o policial aproveita para revistar o carro. Encontra o revólver de Jefferson – um calibre 22 feito no Brasil pela Rossi & Irmãos – e confere as anotações que estão em uma pasta de couro preta. Também verifica o estofamento. Na avenida General San Martin, o trânsito para. Ele ordena então que o carro preto acione a sirene.

Os três prisioneiros são levados para a Coordenação Federal, um enorme prédio cinza que ocupa um quarteirão na avenida Belgrano. É quase verão na Argentina. Seis da tarde. O sol ainda brilha forte.

Os carros entram na garagem subterrânea e os presos são levados, aos trancos, para o último andar, ao gabinete do coronel Jorge Esteban Cáceres Monié, superintendente da Coordenação Federal, órgão de inteligência da Polícia Federal argentina. Jefferson se adianta e tenta tirar seus documentos da pasta, que lhe é arrancada das mãos pelo coronel. Queria mostrar o seu “título de viagem”, válido como passaporte, que recebera na Argélia – país que o protegia oficialmente como refugié politique. Era um documento com foto, redigido em árabe e francês, que lhe garantia transitar por todos os países que mantivessem relações diplomáticas com a Argélia. O documento também estendia ao portador amparo internacional, assegurando o seu direito de recorrer à representação diplomática argelina. Jefferson também fica sem o porta-notas em que levava 500 dólares. Os passaportes de seu filho e de seu sobrinho também são ignorados pelos policiais. Eduardo então mostra sua carteira militar e se identifica:

– Sou funcionário do Estado-Maior das Forças Armadas do Uruguai, e filho do coronel Guillermo Lopetegui do Exército do Uruguai. Estava apenas viajando com meu tio e meu primo a passeio.

Cáceres parece não acreditar nessa história:

– Essa carteira militar é falsa.

Os policiais já retiram os cintos, anéis e cadarços dos três. O superintendente prossegue com a farsa:

– Onde está a droga? Vocês estão fazendo tráfico?

O teatro do motivo da prisão dura pouco. Alguns minutos depois, Jefferson é levado para uma sala por um agente que mais parecia um funcionário público à beira da aposentadoria. A tentativa de diálogo com Jefferson também confirmou que ele não fazia ideia do que estava acontecendo:

– Por que o senhor está preso?

Jefferson murmura algo. O funcionário vai mais longe:

– O senhor quer um café?

Jefferson volta a murmurar, recusando a oferta.

Meia-hora se passa. Jeffinho e Eduardo são levados encapuzados, descalços e algemados para o subsolo 4 (como o nome aponta, quatro andares abaixo do nível da rua).

Pouco depois é a vez de Jefferson. Dois policiais que participaram da captura entram na sala. Cada um o segura em um braço. Vão até o elevador. Ele não está de capuz e pode ver que foram para o subsolo. Passam por um pequeno túnel, mal iluminado e com paredes emboloradas. Ar quente e sufocante. O lugar fede a mofo. O caminho termina num grande portão de ferro vigiado por um guarda. Há silêncio. Assim que percebe a aproximação dos agentes, o carcereiro pega a chave e abre o portão. Jefferson e os policiais descem três degraus, andam cerca de três metros para subir novamente mais três degraus. Passam por outro portão de ferro – já aberto por outro guarda que aparenta ter 40 anos e é tão gordo que seu corpo chega a balançar enquanto anda.

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Estão na galeria das prisões. O lugar é mais escuro que o corredor. O fedor é ainda pior. São duas alas: à direita de quem entra há um muro baixo, que serve para isolar os vasos sanitários imundos e quebrados, de onde escorrem líquidos escuros que se espalham pelo chão. Alguns metros à frente, ainda à direita, ficam as celas coletivas. Em uma delas apenas um médico que acreditavam ser paraguaio. Em outra, dois traficantes de drogas. Separadas por grades, as celas permitem que haja comunicação entre os presos. Do lado esquerdo, há cinco solitárias – pequenos calabouços geminados, com grossas portas de madeira e fechaduras de ferro que eram travadas com chaves enormes. Em cada porta, um postigo que era aberto de vez em quando para o guarda pegar o preso de surpresa e verificar o que ele estava fazendo. Não havia muito o que fazer em uma cela de menos de dois metros quadrados, mas muitos guardas sentiam um inexplicável prazer ao abrir aquela pequena janela para flagrar os prisioneiros. Jefferson é jogado na primeira solitária. Porta fechada. Escuridão. Descalço e ainda algemado, Jefferson usa os pés para reconhecer a cela. Encontra um colchonete sujo, fedido e rasgado. Não pode deitar completamente porque o espaço entre as paredes é menor do que ele. Amarra seu lenço ao rosto para tentar diminuir o mau cheiro que contamina o ar. Poucos minutos se passam e o postigo é aberto. O carcereiro gordo quer notícias:

– Você é argentino? Por que está preso?

Jefferson não perde a oportunidade.

– Sou um coronel aposentado do Exército brasileiro. Fui preso ao desembarcar em Buenos Aires, quando vinha de Montevidéu, junto com meu filho e meu sobrinho.

O homem se espanta com o relato e tenta consolar Jefferson:

– O senhor quer um mate ou uma bolacha?

Jefferson recusa novamente. Só resta a escuridão. Não pensa em si, afinal já eram mais de 30 anos de prisões e lutas contra os golpes dentro das Forças Armadas. Estava acostumado. Mas dessa vez levara consigo seu filho e seu sobrinho. Tinha certeza de que o pior ainda não acontecera. Doía também saber que o único crime deles era estar em sua companhia. Estava inconformado por cometer um erro tão grave. Como já havia passado quatro dias em Buenos Aires em sua viagem anterior, baixara a guarda. Culpava-se agora por seu excesso de relaxamento, afinal desdenhara da força policial de um país que vivia há quatro anos sob uma ditadura intimamente ligada aos militares. Desconfiara do homenzinho do cachimbo, mas nem imaginava que vivia, como vítima, um momento histórico e trágico da América do Sul. Três nações… três aparelhos de repressão diferentes que se uniam, na clandestinidade, para realizar uma prisão.

A essa altura, Nilo Caneppa já havia regressado à embaixada para receber o telefonema do subcomissário da Polícia Federal argentina em que seria “informado” da prisão, exatamente como presenciara. O subcomissário mostra serviço:

– Há muita documentação com eles que vale ser vista. O grupo pretendia seguir para Mendoza e se encontrar com um médico peronista e de lá seguir para o Chile. Essa informação parece ser verdadeira, dada a quantidade de bagagem que levam.

Em seguida, vem o convite que coloca de cabeça para baixo a supremacia do Estado argentino:

– O senhor não quer vir até a Polícia Federal para tomar conhecimento de mais detalhes?

Vela derretida
Caneppa aceita e faz mais. Convida o tenente-coronel aviador Leuzinger Marques Lima, adido da Aeronáutica na embaixada brasileira em Montevidéu para acompanhá-lo. No Informe 388, a presença, em Buenos Aires, do adido de Montevidéu é justificada por uma coincidência: Leuzinger estava na capital para participar de uma cerimônia da Força Aérea da Argentina. Porém havia mais coincidências: Leuzinger era o responsável por coordenar a vigilância de Jefferson na capital uruguaia e tinha um currículo apreciado pela ditadura brasileira. Entre outras façanhas, roubara um avião para participar da rebelião de Aragarças que desejava derrubar o governo de Juscelino Kubitschek.

Na solitária. O silêncio cortante é interrompido pelo barulho da fechadura. Passos fortes e vozes que se misturam. Depois… novamente o silêncio. Mais algumas horas ou minutos em que nada acontece. Até o temor se tornar real.  Fechaduras e dobradiças abertas. Jefferson reconhece os gritos. É seu filho. Em sua cabeça já há a certeza de que ele vai ser torturado. Os gritos ficam cada vez mais longe até desaparecerem de vez.

Levado para uma sala isolada, deitado em uma mesa de mármore, Jeffinho ouve muitas perguntas. Os torturadores não param de gritar. Querem saber sobre o que iam fazer no Chile. Com quem seu pai se encontrou no México e em Cuba. Os nomes dos integrantes dos Tupamaros e dos Montoneros com quem mantiveram contato. Com quem ele se comunicava no Brasil. Começam as pancadas mais violentas. E os choques elétricos.

Habla! Habla!

Perguntam também sobre o sequestro do cônsul brasileiro em Montevidéu, Aloysio Gomide. A cada “não sei”… “não conheço”… uma nova sessão de tortura.

Habla! Habla!

Os berros prosseguem. As respostas evasivas irritam os torturadores. Obrigam-no, a socos e pontapés, a deitar de bruços. Pingam cera de vela derretida e quente em seu ânus, aberto com um aparelho parecido com um fórceps.

Habla! Habla!

É hora da troca. Da sua cela, Jefferson ouve passos. E ouve ou pensa ouvir um choro de dor. Porta aberta. Jeffinho é jogado dentro de seu calabouço. Outra porta aberta. Novos gritos. Chega a vez de Eduardo. A rotina do terror: os passos, os gritos que somem. O silêncio. Os minutos. Os segundos. Os passos que arrastam mais uma vítima desacordada. A dobradiça. O prisioneiro largado. A porta que se fecha. A portinhola que se abre. A frase cínica e irônica:

– Meu chefe quer falar com você.

Jefferson sai em silêncio de sua cela. É levado para uma sala onde mais três homens o aguardavam. Um deles participou da prisão no porto. É ele quem retira suas algemas. O outro começa:

– Diga o nome dos líderes peronistas a quem você é ligado.

– Não conheço nenhum líder peronista.

Vem um forte soco no rosto. Agarrado pelos agentes, toda sua roupa é tirada. Jogam-no deitado na mesma mesa de mármore pela qual passaram Jeffinho e Eduardo. Amarram suas mãos aos pés, o que força os joelhos a ficarem flexionados. No rosto, uma mordaça de pano e uma venda bem apertada. Um dos homens ainda se debruça sobre a cabeça de Jefferson e com as mãos força sua testa contra a mesa. Aproxima-se um quarto homem segurando uma caixa de metal, a última imagem que Jefferson pode registrar antes de ser vendado. Sente choques elétricos nos pés; depois, na canela; nos joelhos, nas coxas. A dor lenta com ritmo e métrica. Depois, os choques passam para os testículos e o pênis. Jefferson grita de dor, mas a mordaça transforma seus urros em gemidos. Seu corpo se retrai com tanta força que, mesmo amarrado, mesmo deitado, ainda havia quatro mãos o segurando. As reações aos choques foram diminuindo. Não que conseguisse mais resistência, é que estava tão fraco que ficara à beira de um desmaio. Sente então que um estetoscópio é colocado sobre seu peito. Talvez um médico estivesse checando suas condições. A primeira sessão de la Picaba, como o choque elétrico era conhecido na gíria daqueles torturadores, termina.

Livro com dedicatória
O alívio com a pausa transforma aqueles poucos minutos de descanso em uma eternidade. Mas, a um novo sinal do médico, la Picaba recomeça. O corpo de Jefferson encontra forças para se retesar a cada novo choque. A reação segue forte porque as quatro mãos continuam empurrando as suas pernas e cabeça contra a mesa.

Uma pequena interrupção. Os policiais viram o corpo de Jefferson, que continua vendado. Sua barriga agora está em contato com a mesa. Ele sente um líquido quente escorrendo em suas nádegas. Os torturadores repetem a crueldade e derramam cera de vela em seu ânus.

Arrancado da maca. Levado para outra sala. Aguarda em pé. Mesmo se quisesse, não conseguiria se sentar. Ainda grogue dos choques, passa por um novo interrogatório:

– Com quem você vai se encontrar em Mendoza?

– Com ninguém.

– Quem é esse doutor Navillat? E Redento Basso?

Os agentes encontraram esses nomes em um livro de medicina psicanalítica na pasta de couro de Jefferson. Na obra havia uma dedicatória do uruguaio Navillat para o argentino Basso. Para os torturadores ali havia bem mais que um livro:

– Essa dedicatória é uma senha? Qual a ligação do movimento subversivo peronista daquela fronteira com suas ligações comunistas? Diga o que sabe ou amanhã tem mais.

– Não há nada político nessa dedicatória. Apenas um livro que um médico mandou para outro.

Os policiais não acreditam, mas reagem sem violência física. Voltam a ameaçar aos gritos:

– Cínico! Mentiroso! Se continuar negando, amanhã tem mais!

O silêncio de Jefferson sobre os dois médicos teria pouco valor. A repressão argentina conhecia os nomes. O uruguaio Mario Navillat era um dos melhores médicos do Uruguai e militante da esquerda revolucionária. Redento Basso, um argentino de Mendoza que era o contato de Jefferson, ajudava os exilados brasileiros a chegar até o Chile.

De volta à solitária. Escuridão e um alívio: poder deitar encolhido naquele calabouço fedido, sobre um colchão imundo.

RAÍZES AUSTRÍACAS, TRAJETÓRIA NACIONALISTA
Um dos militares que mais se identificavam com a corrente nacionalista do Exército poderia ter um sobrenome bem estranho aos brasileiros. Jefferson Cardim de Alencar Osório era filho da poetisa e professora Corina Cardim e do capitão de corveta da Marinha Roberto Alencar Osório, cujo nome verdadeiro era Robert Ernest Hoomenark. Os pais de Robert eram austríacos e fugiram dos conflitos que estouravam na Europa no século 19. Enquanto cursava a Escola Naval, Robert teve seu sobrenome alterado para Alencar Osório – em homenagem a José de Alencar e ao general Osório. A sugestão da mudança veio do padrinho do menino na Marinha, o almirante Santa Rosa, que temia uma futura perseguição a Robert por causa de sua origem.Jefferson nasceu no Rio de Janeiro em 1912 e sentou praça na Escola Militar do Realengo com 18 anos. A partir daí, fosse qual fosse o vento que soprasse no comando do país, manteria suas posições nacionalistas. Pagaria o preço.

Em 1935, filiou-se à Aliança Nacional Libertadora, uma frente política antifascista. No começo da Segunda Guerra Mundial, enquanto Getulio Vargas flertava com o nazi-fascismo, Jefferson manifestava-se abertamente a favor dos aliados. Considerava-se um marxista-leninista, mas nem por isso deixava de defender ideias comuns aos norte-americanos. Participou ativamente da Sociedade dos Amigos da América – criada pelo general Manuel Rabelo e pelo ministro Osvaldo Aranha –, que combatia o nazi-fascismo e incentivava a participação brasileira ao lado das Forças Aliadas. Jefferson se tornou um dos maiores incentivadores da Sociedade no Rio Grande do Sul. Enquanto servia no 6o Regimento de Artilharia Montada em Santa Maria da Boca do Monte, fundou um diretório local. Um vespeiro em um lugar lotado de descendentes e simpatizantes da Alemanha. Acabou preso depois de uma reunião pública em que fez um discurso contra o Estado Novo.

Transferido para a cidade gaúcha de Cruz Alta em 1947, voltou a ser preso um ano depois. Dessa vez por viajar a Montevidéu para se casar com a uruguaia Rosa Hortensia del Carmen Lopetegui Maggia de Alencar Osorio. Era o seu segundo matrimônio. Jefferson casou pela primeira vez com Adela Maggia, que tinha uma filha e era separada de um oficial do Exército uruguaio, o que foi considerado uma afronta ao espírito de corpo da caserna. A segunda esposa de Jefferson, Rosa, era justamente a filha de Adela, que falecera cinco anos antes. Durante esse período, Rosa viveu com o pai e só reencontrou Jefferson quando ele foi transferido para Cruz Alta. Mesmo assim, os inimigos não deixariam por menos. Assim que chegou ao Brasil, Rosa, então com 19 anos, tornou-se alvo. Acusada de ser comunista, era obrigada diariamente a comparecer à delegacia local. Sua família foi investigada detalhadamente pelo adido militar do Brasil no Uruguai, o então major Ernesto Geisel. Nada foi encontrado contra ela, mas Jefferson não perdoaria Geisel.

Oito anos depois, na patente de tenente-coronel, Jefferson foi transferido para Quitaúna, em São Paulo, como subcomandante do 2o Regimento Antiaéreo. Quem era o comandante? O então coronel Ernesto Geisel. Nas histórias da caserna, “Jefferson x Geisel” se tornou um clássico que marcou época. Eram simetricamente opostos. Rasgando a legislação militar, o direitista Geisel negou uma casa ao esquerdista Jefferson na Vila Militar, dispensou-o das reuniões, das aulas dos oficiais e do Conselho de Administração. Humilhado, Jefferson era um fantasma no regimento.

No dia em que comemorava um ano no comando, Geisel viveu a maior tragédia de sua vida. Seu filho, Orlando Geisel Sobrinho, ao atravessar de bicicleta a linha férrea – algo comum entre os filhos dos oficiais – foi atingido por um trem. O garoto de 16 anos morreu na hora. Jefferson estava preso naquele dia. Continuou preso. Geisel deixou Quitaúna para nunca mais voltar, e sem lhe passar o comando.

Em 1960, Jefferson participou da campanha derrotada do marechal Henrique Teixeira Lott à presidência. No ano seguinte, tentando evitar a prisão do marechal – que defendera a posse do vice João Goulart durante a crise da renúncia de Jânio Quadros –, foi mais uma vez preso.

Estava sem função quando o conciliador Jango optou por tirá-lo do país e nomeá-lo diretor-técnico do Lóide Brasileiro, em Montevidéu. E lá estava em primeiro de abril de 1964. No dia seguinte ao Golpe, já se encontrava em Porto Alegre pronto para lutar pela resistência… que nunca veio. Os inimigos no poder: Jefferson foi transferido para a reserva pelo Ato Institucional no 1 e teve seus direitos políticos cassados. Jamais aceitaria essa situação.

Passou um ano inconformado, vivendo de suas economias. Não sossegava. A CIA também não. E o vigiava atentamente. Um telegrama da agência norte-americana, enviado em outubro, já alertava para um plano que não saía da cabeça de Jefferson: invadir o Brasil antes do primeiro aniversário do golpe. Dois meses antes, seu filho Jeffinho fora preso no Rio e levado para o prédio do DOPS (Departamento de Ordem Política e Social) na rua da Relação para ser interrogado. Tinha 11 anos de idade.

Jefferson sentia o dever de marcar posição. E fez a primeira ação de força contra o governo militar. Tornou-se o líder da Guerrilha de Três Passos. Uma guerrilha brasileira, cheia de improvisos, gestos heroicos, situações cômicas, traições, dor, tragédias e lances inacreditáveis.

As reuniões sobre a invasão foram feitas na capital uruguaia. Muita gente com o pé atrás. E Jefferson determinado. Seu objetivo estava longe de ser modesto. Pretendia que a guerrilha detonasse um levante popular que derrubasse o governo Castello Branco. Somente isso.

Depois de pedir ajuda a muitos exilados, conseguiu levantar mil dólares para a operação, (500 doados por Darcy Ribeiro; 300 por Ivo Magalhães, ex-prefeito de Brasília. O restante veio dele mesmo). Em uma loja de Montevidéu, comprou três armas tchecas semiautomáticas, três mil balas e dois alicates. Gastou pouco mais de 300 dólares. O que sobrou seria usado durante a Operação.

No dia 19 de março de 1965, Jefferson e o ex-sargento da Brigada Militar gaúcha Alberi Vieira dos Santos, iniciaram a coluna a partir da cidade uruguaia de Rivera – onde chegaram… de táxi… desde Montevidéu. Atravessaram a fronteira para Santana do Livramento. Ganharam adesões. Bem menos do que esperavam, mas seguiram em frente. Um total de 23 homens em um caminhão Ford 1939 com um farol quebrado e uma bateria que descarregava a cada parada.

À meia-noite e quinze de 26 de março de 1965, a cidade gaúcha de Três Passos, onde Alberi nascera, foi tomada pelos combatentes, que invadiram o posto policial e confiscaram armas e munição. Obrigaram também os funcionários da rádio local a colocar no ar a Proclamação ao Povo Gaúcho, em que chamavam a população à luta armada para defender a Constituição. Os brizolistas ficaram empolgados. Houve o dedo de Leonel Brizola na concepção da guerrilha. E mais nada. A ajuda prometida por ele nas reuniões realizadas em Montevidéu nunca veio. Pelo contrário, quem veio foi um emissário de Brizola alertar o povo gaúcho que ele não concordava com essa ação.

Os 23 combatentes seguiram a jornada e atravessaram, sem resistência, o Estado de Santa Catarina. Estavam em condições bem melhores: a bordo de um caminhão Mercedes-Benz novo, ano 1964, cor amarela, confiscado em nome da guerrilha. Segundo a revista Manchete, com a frase no para-choque: “É triste sonhar com um amor e acordar sozinho”.

Preocupado com um possível atentado contra o presidente Castello Branco que estava em Foz do Iguaçu para inaugurar a Ponte da Amizade, o Exército enviou cinco mil homens para a região. No município de Capitão Leônidas Marques, os guerrilheiros se impressionaram porque viam jipes, caminhões e soldados surgirem de todos os lados.

Vinte e três contra cinco mil. Mesmo assim, coroando essa quixotesca jornada, foram os rebeldes que tentaram uma emboscada contra os soldados. O encontro se deu no vilarejo de Santa Lúcia. A ação terminou em tiroteio. Os grupos ficaram separados por uma lombada formada por uma densa vegetação com grandes arbustos e espinhos. Cinquenta metros de distância. E não se viam. Vinte minutos de fogo sem que as balas ameaçassem o outro lado. Tiros disparados a esmo, para cima. Até que se ouviu um grito de “cessar-fogo”. Atingido por uma rajada de metralhadora INA 45 – armamento do Exército que os rebeldes não possuíam –, o terceiro-sargento da Companhia de Infantaria de Francisco Beltrão, Carlos Argemiro Camargo, morreu durante a troca de tiros. Jefferson aproveitou para ordenar o recuo dos rebeldes, mas enquanto rastejavam pelo chão, passaram a sentir o barulho dos tiros que agora passavam bem perto das suas cabeças. O Exército ultrapassara a lombada e vinha atrás dos rebeldes. Jefferson conseguiu escapar, porém acabou capturado por uma patrulha, enquanto se abrigava na casa de um colono.

O que viria a seguir mudaria para sempre a forma com que o Exército tratava os seus próprios oficiais presos.

Por volta das dez da noite, Jefferson é levado em um jipe até capitão Dorival Sumiani, comandante da Companhia do sargento morto:

– Joga este filho da puta no chão.

Ordem cumprida. O capitão e dois tenentes passam a chutar Jefferson:

– Filho da puta, assassino, rola no chão que é o que tu merece.

Jefferson atravessa a rua rolando e sendo chutado. Para no jardim de uma casa que estava servindo de base para o destacamento. Com um garfo de campanha, o capitão passa a espetar Jefferson dos pés à cabeça. Só não fura seu rosto. Para se proteger, ele havia voltado a face contra o chão. Sumiani manda que Jefferson se vire e pisa com força em seu nariz e sua boca. Grita para os soldados:

– Escarra na cara deste filho da puta, comunista, assassino.

Depois da sessão de cuspidas, vira novamente a cabeça de Jefferson com seu coturno. Tira seu outro pé do chão e se equilibra em cima de sua nuca:

– Beija a terra que traíste, filho da puta, comunista, assassino.

Começa o caminho de volta. Da mesma maneira que veio. Rolando pelo chão, chutado pelo capitão e por dois tenentes, Jefferson é devolvido ao jipe, que sai escoltado por mais duas viaturas até parar uma hora depois, ainda na estrada, onde se encontrava outra guarnição do Exército.

Um oficial de óculos e uniforme da gabardine, com uma INA 45 nas mãos, surge na frente de Jefferson. É o major Hugo Coelho, que ordena:

– Tirem ele do jipe e venham andando pela estrada.

E aponta para Jefferson:

– Mas ele vai pulando.

Dois soldados seguram os braços de Jefferson que segue saltitando. O major não para de olhar para os lados:

– Vamos escolher um lugar para fuzilar este filho da puta.

Coelho continua andando, seguido pelos guardas e Jefferson, que pula sem parar. Passam-se dez minutos e uma nova ordem:

– Coloquem ele na caminhonete da Polícia Rodoviária.

A tortura psicológica atinge Jefferson, que passava a aceitar o seu fuzilamento como única saída. A viatura parte com guardas que fazem sua escolta e o próprio major Coelho, que, durante todo percurso, destrava a arma e ameaça matá-lo várias vezes.

A uma da manhã do dia 28, o comboio chega a Foz do Iguaçu. O tenente-coronel Marques Curvo, comandante do Batalhão de Fronteira, o major Ary Ronconi Moutinho e o capitão Rego Monteiro aguardavam Jefferson, que é conduzido para a cela. O major Hugo Coelho ordena:

– Vamos fazer esse filho da puta passar a noite estaqueado nas grades.

Ronconi e Monteiro, então, amarram os pulsos de Jefferson e estendem seus braços com força para cima, prendendo-os nas grades. Seus pés também são atados e presos. Outros combatentes são trazidos e, por ordem de Coelho, passam a noite da mesma maneira que Jefferson. Não conseguindo mais resistir em silêncio, o grupo começa, um a um, a gemer. Na madrugada, uma sinfonia do horror toma conta da prisão.

Às dez da manhã, seus braços e pernas são desatados. Jefferson cai no chão e fica. Imóvel. Não desmaia. Minutos depois, arrasta-se até a privada, puxa a válvula e, com as mãos, pega água e bebe.

Jefferson ainda seria interrogado outras vezes, exposto publicamente, torturado ainda mais e apanharia em vários quartéis. Condenado a oito anos de prisão, teve a pena aumentada em dois anos pelo Supremo Tribunal Militar. A morte do sargento Camargo pesou na decisão. A defesa de Jefferson exigiu o documento da perícia balística da autópsia do sargento Camargo, mas o relatório desapareceu durante o processo.

Em 1968, realizou uma fuga espantosa. Recolhido ao 5o Regimento de Obuses, em Curitiba, conseguiu escapar com a ajuda do cabo Luís Vitor Papandreou e do ex-major Joaquim Pires Cerveira. Contou também com a participação do seu filho caçula, então com 15 anos de idade – o mesmo Jeffinho que fora interrogado com 11 anos e que seria preso com o pai em Buenos Aires. De Curitiba, o grupo seguiu num Simca Chambord V8 até São Paulo. De táxi, chegaram ao Rio. Jefferson refugiou-se na embaixada do México, de onde saiu para exilar-se naquele país, depois em Cuba e na Argélia. Passou pelo Chile, Espanha, Uruguai e Guiana, sempre atrás de companheiros e recursos para uma nova invasão do Brasil, dessa vez por Roraima. A prisão e o sequestro em Buenos Aires destruíram seu plano.

Inimigo da nação
Já no prédio da Coordenação Federal, Caneppa e Leuzinger recebem todo material apreendido: um passaporte da Argélia e outro do Brasil, com data de validade adulterada; a carteira de identidade do serviço de identificação do Exército de Jefferson; as cédulas de identidade de Jeffinho e Eduardo; algumas cartas; folhas em branco de cartões de identidade; uma relação de endereços em Montevidéu, Santiago e Rio de Janeiro. Outros documentos seguiram para o serviço de tradução da polícia argentina e seriam entregues mais tarde.

Enquanto Caneppa e Leuzinger examinavam o material apreendido, um tenente-coronel do Exército argentino entra na sala. Mostra muita colaboração e deixa claro que o Brasil manda na Polícia Federal argentina:

– Em nome do meu chefe, coronel Cáceres, titular da direção de Coordenação Federal, apresento suas desculpas por ele não ter vindo a esse encontro.  Ele manda perguntar aos senhores o que desejam que seja feito com os elementos brasileiros detidos.

– O coronel Jefferson é um dos mais importantes foragidos do Brasil. Temos total interesse em que ele seja entregue às nossas autoridades, diz Caneppa.

– Isso pode ser feito facilmente baseado em um decreto que permite a expulsão de estrangeiros que contribuíram para a desarmonia entre países e se mostrassem ligados a atividades subversivas.

Fácil. O coronel Jefferson ficara menos de cinco minutos em liberdade em solo argentino, mas já era um inimigo da nação. O tenente-coronel argentino mostra-se ainda mais afável:

– Esse processo demora entre quatro e cinco dias. Com a assinatura do presidente Roberto Marcelo Levingston, torna-se irrecorrível. O fato estará encerrado dentro desse prazo.

O tenente-coronel se despede e sai. Menos de dez minutos retorna com mais informações:

– O coronel Cáceres saíra justamente para expor ao general Lanusse o fato e a nossa interpretação policial. Depois disso, o processo seguirá para a assinatura do presidente. Peço que já pense na maneira como será feita a entrega desses dois elementos.

Os militares brasileiros podem comemorar. A notícia da prisão de Jefferson já chegara ao general Alejandro Lanusse. Levingston era “apenas o presidente” do momento daquela Argentina recém-saída de mais um golpe. Quem mandava mesmo era Lanusse, que sabia o que tinha nas mãos. E com certeza não queria permanecer com esse problema por mais tempo.

Muito bem informado sobre as aventuras de Jefferson, Nilo Caneppa aproveita e pede uma nova ajuda, sem jamais esquecer a mais importante faceta dessa operação… a clandestinidade:

– Considerando o temperamento do coronel Jefferson e seus antecedentes, seria totalmente inconveniente que eles viajassem em avião comercial, principalmente porque é necessário manter o mais rigoroso sigilo sobre a expulsão e a entrega às autoridades brasileiras.

A portinhola se abre. Jefferson dormia, ainda alquebrado pelo massacre do dia anterior. Já é manhã de sábado, dia 12. A mão do guarda segura uma caneca de mate morno e um pão velho.

– Que horas são?

– Sete da manhã.

A portinhola é fechada novamente.

Além de doloridas, suas pernas estão bambas porque foi obrigado a dormir encolhido, já que não cabia na cela. Poderia erguê-las contra a parede, mas teria de ficar sentado e a pior dor que sentia era a da queimadura da cera de vela na região do ânus. Está escuro.

Somente nessa manhã, Caneppa comunica a prisão ao embaixador brasileiro Francisco Azeredo da Silveira. No encontro, o adido militar pede a intervenção de Silveira para que se consiga um avião. A urgência do pedido se devia à informação de que o solícito presidente Levingston assinaria o decreto de expulsão já na tarde de sábado. O embaixador autoriza então o adido militar a atuar em seu próprio nome, caso houvesse qualquer inconveniente. Caneppa e Leuzinger se reúnem para acertar os detalhes da volta dos presos.

Uma hora da tarde. A porta da cela de Jefferson se abre novamente. Ainda sem refeição alguma além do mate, é reconduzido ao elevador. Entra em uma sala onde o esperam um fotógrafo e um policial identificador. Depois de apanhar, é hora de se identificar. Duas fotos de perfil, outras duas de frente. Impressão digital dos cinco dedos.

Quando Jefferson se preparava para mais uma sessão de choques e pontapés, a surpresa. Surge em sua frente um prato feito – especialidade dos bares de rua, aqui e em Buenos Aires – com ovos, batata frita e bife. Enquanto almoça, um policial argentino tenta puxar conversa:

– Eu conheço o Brasil. Já estive em São Paulo, no Rio…

Jefferson aproveita a chance e tenta, mais uma vez, conseguir alguma informação:

– O senhor sabe o que vão fazer comigo e com os garotos?

O policial ignora a pergunta e segue falando sobre o Brasil. Assim que termina de comer, Jefferson é levado para o último andar. Uma sala grande de escritório, mas com apenas uma mesa ocupada por um agente sentado em frente a uma máquina de escrever. Loiro e magro, tem olhos azuis e não aparenta ter mais de trinta anos. As outras mesas estão vazias. Era sábado, não deveria haver expediente – pensa Jefferson.

Dois policiais, armados com metralhadoras, ficam atrás dele e o obrigam a sentar de frente para o loiro. Vai surgir mais uma farsa. Começa um interrogatório que deve provocar a abertura de um inquérito sobre um crime qualquer que teria sido praticado por Jefferson e pelos garotos. Seguem as perguntas de sempre: nome, endereço, filiação… a cada pergunta, as metralhadoras incentivam as respostas:

– Você sabe os nomes dos peronistas?

– Não.

– Como você nega conhecer os peronistas? Ontem você falou que sabia.

– Não conheço ninguém desse partido a não ser o chefe, Juan Domingos Perón.

O policial loiro se irrita com a provocação. Levanta-se e enche seu rosto com uma bofetada:

Coronel de mierda, hijo de puta, cínico y mentiroso.

Jefferson se mantém quieto. Depois de algumas provocações, outro oficial entra na sala com uma informação que não se encaixava com o cenário:

– O senhor irá seguir até Mendoza acompanhado de um agente. A Argentina não entrega exilados de país algum.

Depois desse comentário, o mesmo policial se vira para os colegas com um ar sarcástico:

– Vocês tomaram uísque hoje?! Ainda tem uma garrafa para o jantar?

Claro que ele se referia à bebida encontrada no carro de Jefferson, devidamente saqueada pelos argentinos, que riram da pergunta. O interrogatório segue.

Caneppa e Leuzinger recebem a confirmação da Coordenação Federal de que – apenas 26 horas depois da prisão – o presidente Levingston havia assinado o decreto. O Itamaraty também é comunicado. A rapidez do país vizinho surpreende os brasileiros, que ainda não haviam resolvido a questão do transporte dos prisioneiros. A cordialidade argentina não se limita apenas à agilidade de seu presidente. Várias vezes, naquela mesma tarde, a Coordenação Federal oferece agentes para acompanhar o voo, questiona os detalhes do embarque e – invertendo de vez qualquer princípio de soberania – pergunta aos militares brasileiros que aeroporto argentino deveria ser utilizado para transportar clandestinamente presos brasileiros detidos em solo argentino.

Ainda na sala sendo interrogado, Jefferson vê seu filho e seu sobrinho passarem pelo corredor.

– O que vão fazer com eles?

– Vão ser identificados, como você, e as suas fotos vão pra galeria de criminosos comuns, na categoria de traficantes de tóxicos, conforme a denúncia da polícia uruguaia.

– Onde vocês encontraram tóxicos?

– Não sei de nada. Foi o que recebi de meus superiores.

Jefferson e Jeffinho seguem apanhando. Ainda encapuzado, Eduardo é retirado da sala para ser devolvido ao Uruguai. Cáceres deu uma olhada melhor em sua carteira militar. A informação foi checada e confirmada. É preciso devolver Eduardo ao Uruguai imediatamente. Ele segue em um voo de carreira para o seu país. Essa libertação garante, em teoria, a vida de Jefferson e seu filho. Deixando de lado o parentesco, ele era um militar uruguaio que presenciara a prisão e tortura em solo argentino de dois brasileiros.

Além da ilegalidade da operação, há muito mais a preocupar o adido brasileiro e a Polícia Federal argentina. O embaixador suíço no Brasil, Giovanni Enrico Bucher, fora sequestrado três dias antes da captura de Jefferson. Bucher estava no cativeiro e se a notícia da prisão de Jefferson se espalhasse, haveria grande chance de ele estar na lista de presos que deveriam ser soltos em troca do embaixador.

AS DUAS DERROTAS DA CONDOR

Depois de 35 anos de um governo marcado por corrupção e violência, o ditador paraguaio Alfredo Stroessner foi derrubado em 1989. O país buscava a democracia e exigia uma nova Constituição, promulgada em junho de 1992. A nova carta permitia o habeas data:o direito de qualquer cidadão requerer e ter acesso ao seu prontuário em arquivos públicos ou privados. O professor e advogado Martín Almada foi o primeiro a exercer esse direito, mas sem sucesso. A polícia paraguaia insistia em dizer que seus documentos “estavam desaparecidos” desde a queda de Stroessner. Aos esforços de Almada juntou-se o juiz José Agustín Fernández, que exigia a entrega do prontuário.Na manhã de 22 de dezembro de 1992, o telefone tocou na casa de Agustín Fernández. Era Almada, que pedia ao juiz que viesse imediatamente à Sección Producciones de la Policía Nacional, na cidade de Lambaré, região metropolitana de Assunção. Por volta das 11 horas, Fernández se encontrou com Almada, já cercado por mais de 20 jornalistas, parentes de desaparecidos e curiosos. Ele queria o apoio do juiz para realizar uma busca.O diretor da seção, Ismael Aguilera Rolón, sem muita convicção, tentou impedi-los. O juiz lhe falou com calma e segurança, lembrando que “estavam em uma democracia”. Em meio a policiais desconcertados, Almada e Fernández entraram em um dos prédios, subiram um lance de escada e pararam em frente a uma sala fechada com cadeado. A golpes de martelo, a porta foi aberta. Lá estavam – jogados de qualquer maneira – livros encadernados, pastas, fitas cassete, fichas completas (com endereços, telefones, lista de amigos e parentes) de perseguidos pela ditadura, folhas avulsas, fotografias, álbuns de casamento, batizado, aniversário e formatura; além de dossiês e relatórios  com as assinaturas, feitas de próprio punho, dos responsáveis pelas ações realizadas na Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Paraguai e Uruguai. Estava atestada a existência de um sistema clandestino de cooperação entre as ditaduras da América do Sul que realizou sequestros e prisões ilegais, torturou e matou seus opositores das mais chocantes formas, como os “voos da morte”, que também aconteceram no Paraguai (aviões decolavam com prisioneiros políticos a bordo e aterrissavam sem eles). No mesmo local também foram desenterrados sacos plásticos que continham bolsas com mais pastas, além de armas e instrumentos de tortura.

Eram os 320 mil documentos do governo paraguaio – os Arquivos do Terror – que comprovavam a existência da Operação Condor. Para dar conta de tamanho volume – mais de três toneladas – de papel, o que aconteceu em seguida foi impressionante. Formou-se uma corrente de homens, mulheres e até crianças que passavam as pastas de mão em mão. Da sala até um caminhão onde os documentos era cuidadosamente colocados. O caminhão com todos papéis só chegou ao Palácio da Justiça ao anoitecer daquele dia em que a história da América Latina mudou para sempre.A vitória de Almada. O professor começara sua saga havia 15 anos. Buscava a verdade sobre sua prisão e tortura; e sobre a situação em que ocorreu a morte de sua esposa. Almada também queria saber porque fora interrogado por policiais argentinos, chilenos, bolivianos e brasileiros. Com uma frase, resumiu o que aconteceu naquele dia: “Fomos do rumor sinistro à verdade comprovada”. Mas faltava um ator nesse cenário. Durante o governo de Bill Clinton, os Estados Unidos desclassificaram 24 mil documentos que evidenciam a existência da Operação e a participação norte-americana. Um deles, o telegrama enviado por Robert Scherrer, chefe do escritório do FBI em Buenos Aires, além de explicar como funcionava esse sistema entre os países, ainda citava o termo Operation Condor.

Há 20 anos, com Martín Almada, houve a descoberta dos arquivos. Mas o terror mostrou sua cara e já havia sido derrotado no dia 17 de novembro de 1978. E por dois jornalistas brasileiros. Alertados por um telefonema anônimo feito para a sucursal da revista Veja em Porto Alegre, o repórter Luiz Cláudio Cunha e o fotógrafo J.B. Scalco seguiram para a rua Botafogo, no bairro Menino Deus. No endereço indicado ficava o apartamento da uruguaia Lilian Celiberti, que fora sequestrada junto com Universindo Díaz e os dois filhos dela: Camilo, de oito, e Francesca, de três anos. Lilian e Universindo foram torturados na capital gaúcha e no Uruguai.

Cunha e Scalco entraram no apartamento e ficaram surpresos ao ver armas apontadas para suas cabeças. Era para ser uma cilada… Os agentes da Condor esperavam por Hugo Cores, um importante líder da guerrilha uruguaia e não por um repórter e um fotógrafo. Atordoados por mostrarem a face, os policiais vacilaram. Não sabiam o que fazer, como contou o próprio Cunha, no Seminário Internacional sobre a Operação Condor, realizado em julho: “Eu olhei no olho da Condor (…) A inesperada aparição de dois jornalistas, algo inédito no território da Condor, obrigou os chefes uruguaios e brasileiros a abortarem a operação de Porto Alegre, voltando às pressas a Montevidéu. Dessa vez, portanto, a praxe de sangue da Condor não se cumpriria: os sequestrados sobreviveram, apesar das torturas, e não puderam ser simplesmente ‘desaparecidos’. A denúncia do sequestro dos uruguaios em Porto Alegre virou um escândalo internacional, que mobilizou a imprensa, os partidos, os advogados, as entidades de direitos humanos”.

Cunha também defende que o terror nasceu do medo: “O fantasma do comunismo ajudou a justificar o mergulho acelerado dos regimes do Cone Sul em um ciclo de violência e ilegalidade onde se incubou a Condor”. Sem limites nem freios, a Operação Condor, que ganhou esse nome por causa da ave típica dos Andes – e que no Brasil deve ser pronunciada da mesma maneira que a expressão “com dor” –, deixou a marca de mais de cem mil mortes.

E não parou. Sofreu metamorfoses e entrou no dia a dia dos inocentes do Leblon. Oficializou e banalizou tortura e morte como soluções. A violência como companheira. Uma convidada indesejável, mas inevitável. E a onda foi se espalhando. O crime comum ganhou reforço, se globalizou e deu as mãos à podridão dos que deveriam zelar pela segurança. O subterrâneo conquistou popularidade e passou a ser idolatrado com seus CVs, PCCs, Fleurys e esquadrões da morte. É história que se repete, em graus diferentes, nos países vítimas da Condor, onde barbárie e sangue são plenamente aceitáveis… comuns até, assim como ônibus queimados, policiais assassinados e chacinas. Perigo real e pânico fabricado. E o número de mortes na madrugada vira assunto no cafezinho. Mas isso é outra história…

Laços de sangue
Uma nova escolta entra na sala para conduzir Jefferson de volta à solitária. Já passa das sete horas da noite. Após algumas horas na escuridão do calabouço, a portinhola é aberta. Luz acesa. O guarda lhe passa uma caneca de mate frio com bolacha:

– Você vai embora de manhã.

Foi impossível não juntar essa informação ao que o agente havia dito na sala de identificação. Mesmo sabendo que isso parecia bom demais, Jefferson passa a noite na expectativa de que seguiria viagem até Santiago. Chega a se convencer que falavam a verdade.

A verdade é que o embaixador Silveira conseguira um avião que já estava em solo argentino. Porém, sem o governo brasileiro saber, o único avião disponível naquele sábado se transformou na garantia real da vida de Jefferson e de seu filho. Formando uma corrente, a aeronave servia ao ministro do Trabalho, Júlio Barata, sogro de um sobrinho de Jefferson, Walcles Figueiredo de Alencar Osório, casado com Beatriz Barata Osório, filha do ministro Júlio, que era muito amigo da mãe de Jefferson, dona Corina. Assim que soube para que seu avião foi requisitado, Barata avisou dona Corina, que imediatamente procurou a Aeronáutica em busca de informações sobre o filho e o neto. No Rio de Janeiro dos anos 1970, a linha-dura e a luta armada frequentavam as mesmas festas, eram vizinhas ou até tinham laços de sangue, como o próprio Jefferson, parente distante do ex-presidente Castello Branco.

Oito da noite. Leuzinger informa Caneppa que recebera uma mensagem do adido da Aeronáutica em Buenos Aires, coronel-aviador Miguel Cunha Lanna, confirmando que o Ministério da Aeronáutica havia autorizado o embarque dos presos. Estava cancelada a escala em Montevidéu, o que permitia que o avião fizesse um voo direto para o Rio, onde Lanna se encontrava naquele momento. A mensagem também determina que Leuzinger seguisse no voo como responsável pela vigilância dos detidos. Os últimos detalhes são acertados entre Brasil e Argentina. O embaixador Azeredo da Silveira retorna e é informado de todo processo de negociação.

Pai e filho são retirados das celas. São seis horas da manhã de domingo, dia 13 de dezembro. Retornam, algemados e cercados de policiais, à sala do superintendente, onde muitos agentes estão prontos para uma guerra. Todos portam metralhadoras de mão de fabricação argentina. Nos coldres, pistolas Colt 45. Os policiais que conduziam Jefferson e Jeffinho os encostam num canto, forçando seus rostos contra a parede. É grande o movimento, mas se pode ouvir muito bem o som das travas das armas e dos carregadores de munição. Em  meio a esse barulho, ainda é possível escutar perguntas como: Che estás listo?; Necesitás de balas?; Ya sabes lo que tenés que hacer?; Hablastes con el Jefe?

Vigiando Jefferson e seu filho há um policial quase grudado neles. E também o oficial loiro que ainda não parece satisfeito. Chega perto de Jefferson. Algumas vezes faz o gesto de degola, passando a mão no próprio pescoço. Outras vezes, ameaça:

– Vocês vão ser fuzilados. Seus corpos vão ser jogados no arroio Riachuelo. (um afluente do rio da Prata).

A falação só termina com a chegada do subcomissário. Mesmo longe, Jefferson pode ouvi-lo dizer que o embaixador brasileiro estaria, em uma hora, no aeroporto de Palomar, distante trinta quilômetros da sede da Coordenação Federal.

Os policiais saem da sala e descem pelos dois elevadores do prédio. Jefferson aproveita essa movimentação e consegue falar rapidamente com seu filho. Pede que tenha força. Talvez não fosse necessário. Jefferson está admirado com a serenidade do filho, que, mesmo sofrendo as mesmas torturas pelas quais passara, jamais pediu clemência, nem se desesperou com as inúmeras ameaças de morte que sofrera naqueles dois dias.

Quatro viaturas estão preparadas para deixar o prédio. Jefferson e Jeffinho seguem em carros diferentes, mas ambos são colocados no banco de trás, entre dois policiais que portam metralhadoras de mão apontadas para eles.

O domingo apenas começa em Buenos Aires. Ruas vazias. As quatro viaturas da polícia seguem em alta velocidade. Menos de uma hora depois, os carros param em frente à entrada de um grande campo cercado por arame farpado. Na guarita, um sentinela da Aeronáutica conversa com os policiais da viatura que puxa o comboio. Depois de um rápido telefonema, o sentinela levanta a cancela. Os carros voltam a acelerar fundo. Os argentinos estão preocupados com o horário:

– Mais rápido! Precisamos chegar antes do embaixador brasileiro.

Já é possível ver os hangares e aviões da Base Aérea de Palomar. São quase oito da manhã. O comboio policial para ao lado de um avião a jato bimotor. Na fuselagem, a sigla FAB e a estrela de seis pontas.

Militares argentinos e brasileiros – com seus uniformes característicos – recepcionam e parabenizam os policiais que fizeram a escolta. Pai e filho permanecem nos carros, cercados por agentes. Depois de alguns minutos de conversa, passa a ser visível a impaciência dos oficiais argentinos, que olham no relógio a cada minuto. Pouco depois, uma Mercedes-Benz de cor preta e chapa diplomática surge ao longe, levantando uma nuvem de poeira. Para a uns trinta metros do avião. Do carro, sai o embaixador do Brasil na Argentina, Francisco Azeredo da Silveira. O motorista da viatura de Jefferson confirma:

–  Es el sr. embajador brasileño.

Silveira mal desembarca e é rodeado pelos oficiais brasileiros e argentinos. Um deles carrega uma pasta, de onde retira um documento. Azeredo lê rapidamente e assina. A ditadura passa recibo. Mercadoria entregue. A assinatura serve de comprovante.

Os policiais argentinos arrancam Jefferson e Jeffinho dos carros. Ainda algemados, somente se livram da escolta depois de subir a escada e entrar na aeronave. Neste momento, algemas e capuzes são retirados. Mais uma aberração diplomática: a porta do avião passa a significar a nova fronteira entre Brasil e Argentina.

Na aeronave, o coronel-aviador Leuzinger e dois sargentos, todos armados com metralhadoras de mão INA e pistolas Colt 45, e dois funcionários da Embaixada do Brasil. Ocorre uma reveladora troca de olhares. Jefferson encara Leuzinger que manda os prisioneiros sentarem nos primeiros bancos. Mas não há algemas “brasileiras”. Leuzinger ordena então que os policiais brasileiros peçam emprestadas aos argentinos, que concordam, com a condição de que não se esquecessem de devolvê-las “na primeira oportunidade”. No voo também segue outro preso, um paraguaio chamado Leonardo, que falava português tão bem que enganou argentinos e brasileiros. Acabou despachado para o Brasil porque a Argentina pensava que ele era brasileiro. No Informe 388, o próprio adido brasileiro reconhecia que a viagem forçada do paraguaio também estava longe de ser legal: “Seu embarque foi extra-oficial, por considerar a Coordenação Federal conveniente impedir sua ida para o Chile, como era seu desejo; e parecer, por suas declarações, mais interessante às autoridades brasileiras e inútil para as argentinas.”

Um lindo dia de sol. O voo parte sem problemas. Jefferson e Jeffinho permanecem algemados, com as mãos entre as pernas e só conseguem comer sanduíches e líquidos. O próprio Leuzinger os ajuda a se alimentar. Mostra-se solidário, mas não permite que pai e filho conversem. Durante o voo, Jefferson lembra de onde conhecia Leuzinger. Suas filhas eram colegas de classe na Erwy School, uma das mais famosas e caras escolas de Montevidéu. A confirmação, inevitável, vem pouco tempo depois, com o próprio Leuzinger:

– Estou lamentando muito ter de escoltar o pai da Sonia, amiga de minha filha.

Imediatamente após esse comentário, passa pela cabeça de Jefferson a possibilidade de Leuzinger ter usado a própria filha para conseguir informações sobre suas movimentações. Isso explicaria porque estava sendo seguido. Sonia, a filha de Jefferson, já havia se despedido das amigas, dizendo que depois das festas de Ano Novo, seguiria com a mãe para o Chile para encontrar seu pai. Outra dúvida surge: Sonia estudava na Erwy School graças a uma bolsa. Jefferson não teria como pagar a mensalidade do próprio bolso. Como Leuzinger conseguia manter a filha naquela escola?

O avião pousa no Galeão. Uma hora da tarde de domingo. Assim que a porta é aberta, um grupo entra. Uma festa. Eles se cumprimentam e comemoram muito a ação. Jefferson não era um preso, era um troféu. Não usam farda, mas um dos homens, o mais alto deles, lidera o grupo. Todos seguem suas ordens. Leuzinger fica em pé e se apressa para bater continência a um dos líderes da ala radical da Aeronáutica e seu companheiro de Aragarças, o brigadeiro João Paulo Moreira Burnier, que ordena que os capuzes sejam recolocados. Um dos oficiais não sabe o que fazer com esses presos que mereciam tanta atenção:

– Brigadeiro, devemos levar esses dois para a prisão dos oficiais?

– Não. Eles vão para as celas dos presos políticos.

Montoneros e tupamaros
O destino é o Centro de Informação e Segurança da Aeronáutica (CISA). Aos empurrões e com capuz, debaixo de cuspidas, palavrões e ameaças, Jefferson e seu filho são enfiados dentro de uma caminhonete. No momento em que foi jogado, Jefferson se desequilibrou e bateu com a cabeça no ombro do militar que estava ao lado do motorista.

– Levanta, filho da puta, você quer chupar meu pau, seu veado?

Saem da caminhonete da mesma forma que entraram. Jogados. Aos socos e pontapés, deitam no chão no pátio do pavilhão das celas. Roupas arrancadas, mas continuam encapuzados. Nus. Colocados de pé, recebem “telefones”, tapas aplicados com as duas mãos abertas contra os ouvidos. Agarram suas cabeças e as forçam para baixo. Um pequeno cano de borracha é colocado no ânus de Jefferson. Em seguida, começam a soprar o que ele acha ser uma bomba de pneu de bicicleta.

– Toma no cu, seu filho da puta.

Gritos. Gargalhadas. Palavrões. Xingamentos. Até que uma voz mais forte ordena que os levem para o xadrez.

As celas, individuais, tinham duas portas, uma de madeira e uma de grade de ferro. Uma lâmpada acesa a noite toda, atraindo mosquitos e pernilongos. Um cubículo tão pequeno que não permitia que ele se esticasse. Para dormir, o chão. No teto, telhas de zinco que transformam a cela em uma sauna em pleno verão carioca. Uma pequena janela no alto da cela. O calor e o barulho passam de qualquer limite. Tão perto da pista que se ouve o sistema de som anunciando os próximos voos.

E mais torturas. E novas torturas. Uma delas, conhecida entre os guardas como chibata dos fios de aço, uma especialidade do CISA, aplicada pelo major Jorge Correa, que se deliciava com as marcas de sangue no corpo de suas vítimas. Querem saber os nomes das pessoas com quem Jefferson se encontrara no México, em Cuba, no Chile e na Europa; quais eram as ligações de Jefferson com os Montoneros e Tupamaros; e quem eram as pessoas envolvidas com os movimentos no Brasil. Mais uma vez, o doloroso silêncio de Jefferson pouco adianta. Os cadernos com endereços, apreendidos na Argentina, já haviam feito um grande estrago na organização dos grupos que combatiam a ditadura. Os papéis de Jefferson, apreendidos na Argentina, renderam ao Centro de Informações do Exterior (CIEX) – o serviço secreto do Itamaraty – uma lista de pessoas que se encontravam espalhadas pelo mundo: Alemanha Ocidental, França, Guiana e Cuba; além da Argentina, Uruguai e Brasil.

Ou na tortura… ou na cela. Calor e barulho. E a portinhola que se abre para um oficial fazer a pergunta que se tornaria rotina:

– Ainda não se suicidou?

Jefferson come com a mão a comida que vem em um prato de alumínio sempre arremessado no chão pelo guarda, com o infalível tratamento: “Toma, filho da puta”.

A trégua chega na véspera de Natal. Um sargento surpreende Jefferson e lhe dá uma barra de chocolate e um pedaço de bolo, dizendo que era um presente dos outros colegas da prisão.

– Desculpe, mas por que o senhor está preso?

Jefferson explica sua prisão e deixa o sargento surpreso:

– Mas eu pensava que o senhor e o outro rapaz eram argentinos e estavam presos por tráfico de drogas. Como pode, o senhor é um coronel brasileiro e foi humilhado pela polícia da Argentina?

Enquanto come o bolo, Jefferson ouve o desabafo do sargento. Ele conta que está pedindo transferência porque não suporta mais ver tudo aquilo. A surpresa do Natal continua:

– O senhor quer que eu dê algum recado para seu filho?

– Diga para ficar tranquilo… que estou bem e que minha saúde está ótima.

O sargento sai da cela. Minutos depois, ele retorna:

– Seu filho mandou um abraço e disse que também está tudo bem com ele.

Jefferson tem sua primeira noite feliz desde sua prisão.

No dia 12 de janeiro de 1971, Jefferson recebe a visita de um homem que usava roupa civil e que o trata de maneira respeitosa:

– Coronel, o senhor está bem de saúde?

– Sim.

– Vou mandar um acolchoado para o senhor e ordenar que devolvam suas roupas.

O homem, de pele clara e calvo, jamais se identifica. Jefferson sabe que esse é o mesmo homem que perguntava várias vezes ao dia se ele não havia se suicidado, mas entra no jogo. É o tenente-coronel aviador Ferdinando Muniz de Farias, conhecido também como doutor Luiz, um dos muitos torturadores do CISA, comandado pelo brigadeiro Carlos Afonso Dellamora.

Presente de aniversário
Na manhã do dia seguinte, Jefferson é encapuzado e retirado da cela. De volta à sala de interrogatório. Seu capuz é retirado. Ele está frente a frente com dois homens que não estão fardados. Dois dos seus torturadores. O tenente-coronel Abílio Alcântara, conhecido também como doutor Pascoal e famoso por ter um dente de ouro; e um gordinho de pele bem clara, o capitão Paiva, como Jefferson o chamava em suas próprias anotações. Tentam justificar legalmente o seu sequestro:

– Estamos aqui para um interrogatório sem caráter jurídico, porque sua prisão ocorreu no estrangeiro com o objetivo de que o senhor cumpra o resto da pena a que foi condenado pela Justiça Militar brasileira.

– Minha prisão foi ilegal porque…

Antes que Jefferson prosseguisse:

– Estamos aqui para cumprir ordens. Sobre esse assunto, é melhor não discutir para evitar mais dissabores para o senhor e seu filho…

O “capitão Paiva” abre uma pasta de cartolina e retira uma cópia do título de viagem de Jefferson expedido em Cuba. A pergunta é tão estúpida quanto surpreendente:

– Esse documento é seu?

– Sim. E na sua pasta também deve haver um documento de viagem expedido pela Argélia, que me classifica como refugiado político e me coloca sob a proteção daquele país.

– Não temos conhecimento disso.

Jefferson não sabia, mas, naquele momento não encarava dois torturadores. Ele enfrentava a sombra do Condor:

– Eu não estava viajando clandestinamente. O governo argentino e o embaixador brasileiro desrespeitaram o Direito Internacional e a Convenção de Genebra.

Suas palavras são ignoradas. Mais uma vez, seguem-se perguntas sobre seu segundo exílio. As passagens pelo México, por Cuba, Argel, Paris, Santiago e Montevidéu. Um interrogatório que não leva a nada. Como as respostas se transformam em manifestações, o interrogatório se prolonga por horas. Jefferson sai no lucro dessa vez. Um sanduíche de mortadela com manteiga e um copo de leite são servidos.

Cansados das longas respostas, os interrogadores lhe fazem uma proposta. Eles queriam um relatório sobre suas atividades revolucionárias e condicionaram essa entrega à liberdade de seu filho; bem como a transferência do próprio Jefferson para uma unidade do Exército.

Ele não apresenta objeção. Aceita e faz questão de marcar a entrega para o dia 17 de janeiro. Ganha uma caneta e dez folhas de almaço. Mais tarde, iria pedir mais folhas. No dia prometido, entrega o seu relatório de 30 páginas – na verdade, um manifesto contra a ditadura – e surpreende o tenente-coronel Alcântara e o capitão Paiva com um pedido:

– Hoje, 17 de janeiro, é o meu aniversário. Será que, como presente, eu poderia ver o meu filho?

O que acontece em seguida desconcerta Jefferson. Os dois militares, que até havia uns dias o torturavam, o cumprimentam e aceitam sua proposta. Pela primeira vez desde que foi preso, Jefferson é conduzido sem capuz pelos corredores da prisão. Para em frente à cela do filho. Porta aberta. E um longo abraço que termina em lágrimas. Tantas lágrimas que a emoção daquele reencontro comove até os guardas. O pai, acostumado ao combate, homenageava a valentia do filho, o mesmo filho que, com 15 anos de idade, fora fundamental na sua fuga da prisão para o exílio. Era a primeira vez que se viam desde que voltaram ao Brasil.

Três dias depois, Jeffinho fica livre. Nenhum processo legal é instalado contra ele. Apenas o largam na frente da casa de sua avó, no Rio. Ainda defecando sangue, com uma forte inflamação no intestino, resultado das torturas, ficaria em tratamento hospitalar por longo tempo.

A partir daquele dia, Jefferson seguiria “apenas” preso. Passando noites em claro enquanto ouvia os gritos dos outros torturados. O açoite que rasgava a noite. O riso dos torturadores. Pela manhã, logo cedo, a limpeza feita aos baldes para eliminar o sangue.

No dia 2 de fevereiro de 1971, é transferido para a Fortaleza de Santa Cruz. Em abril de 1975, para o Instituto Penal Cândido Mendes na Ilha Grande. Passa o ano seguinte no Hospital Central Penitenciário. É libertado no dia 2 de novembro de 1977.

Trágicas consequências
Vigiado e perseguido continuamente, eternamente ameaçado de prisão, beneficia-se da Lei da Anistia em agosto de 1979. Um ano depois, sua anistia é anulada pelo Superior Tribunal Militar. Exila-se na Venezuela. Seus direitos políticos são novamente cassados em dezembro de 1980. Um ano depois, parte para o exílio na França. Somente em 1985, com o fim do regime militar, tem sua anistia ratificada. Todas essas movimentações continuam sendo acompanhadas pelos arapongas da linha-dura que continuavam a pleno vapor.

As asas do condor continuaram a lhe fazer sombra até sua morte em janeiro de 1995, sem jamais imaginar que seu sequestro na capital argentina antecederia uma colaboração sistêmica e secreta de estrutura militar clandestina, entre os países do Cone Sul.

Uma operação que pode ter nascido de um encontro que ocorreu seis dias depois da sua prisão: a convite do coronel Cáceres, no dia 18 de dezembro de 1970, Caneppa voltou à Coordenação Federal para uma nova reunião. O oficial argentino chamara o adido militar brasileiro para lhe entregar mais documentos (a demora dessa entrega pode ser atribuída ao tempo da tradução). Cáceres devolveu os originais, mas ficou com as cópias em espanhol.

Foi uma boa conversa para ambos. Destacaram a necessidade de manter sigilo sobre o destino dos prisioneiros. Cáceres tinha motivos para preocupação. Enquanto conversavam, chegou a informação de que a mulher de Jefferson recebera do cônsul uruguaio em Buenos Aires a informação de que seu marido e seu filho foram levados para o Brasil. Os argentinos não sabiam como o cônsul recebera essa notícia.

Cáceres gostara do que viu. Se o Brasil conseguiu, a Argentina poderia seguir esse exemplo. Nada melhor para os militares argentinos do que incentivar a repetição dessa parceria, sem obstáculos burocráticos, legais ou diplomáticos:

– Seria necessário e conveniente que mantivéssemos um contato mais cerrado em casos semelhantes, pois ao seguirmos os canais competentes e escalões hierárquicos, estávamos dando tempo e oportunidade que se realizassem contatos e movimentações como essa, que havia sido impedida.

Em breve, essas sugestões seriam seguidas com trágicas consequências… e tamanha gentileza argentina seria muito bem retribuída. O Condor fazia, com algumas turbulências, o seu primeiro voo.

 

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  • Eduardo

    Impressionante !,

    WIKILEAKS.

  • Professor Kico CEBRAPAZ-PR

    O coração se enche de terror.

    Foram homens, brasileiros, argentinos (neste caso) que promoveram estas atos, o gosto cotidiano de sangue pelos torturadores elevou estes a uma condição de açougueiros.

    Gostaria de saber se hoje conseguem dormir em paz.

    Parabéns pelo relato, merece um filme.

  • aloyso

    Acabei de ler com o estomago revoltado, quero saber porque não temos que ser revanchista, é a minha grande duvida

  • maria montes

    Extraordinária reportagem. Esse material já foi remetido para a Comissão da Verdade? Espero ardentemente que sim, e que alguma hora seja possível começar de fato a passar a limpo a história dos Anos de Chumbo. Obrigada, em nome de todos os brasileiros, pela divulgação desses fatos.

  • Antonio

    Um dia eles verão a volta do cipó de arueira!

  • Léo Bueno

    Sabe quantos e quais destes homens foram punidos? Zero.