Carol Figueiredo estava no grid da primeira corrida de kart realizada no Brasil. A história desse esporte se confunde com a sua

Os três brasileiros que se tornaram campeões mundiais de Fórmula 1 começaram do mesmo jeito: pilotando karts. Portanto, eles devem muito – e sempre admitiram – a Carol Figueiredo.

Impossível contar a história do kart no País sem citar, em diversos capítulos, o nome de Carol. Ele será sempre lembrado como um dos maiores pilotos brasileiros desses diminutos monopostos que zunem “colados” ao chão. Basta dizer que Carol venceu o I Campeonato Sul-Americano de Kart, realizado em El Pinar, no Uruguai, em 1972. Mas sua importância vai além. O Chinês, como os velhos amigos o chamam, foi um dos pioneiros da categoria. Em 1960, lá estava ele, animado, no grid da primeira prova de kart realizada no Brasil.
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“Foi em 1960, no loteamento Jardim Marajoara, na Zona Sul de São Paulo”, relembra o homem bem disposto, de 68 anos, que hoje presta serviços para empresas de blindagem de automóveis. “Corri com o kart número 11. O número 1 ficou para o Cláudio Daniel Rodrigues. Muito merecido – ele construiu os primeiros karts do Brasil. Inclusive o meu.”

Carol conheceu Cláudio por acaso. Quando garoto, ele estudava no Elvira Brandão e, depois, no Mackenzie, dois colégios tradicionais paulistanos, e gostava de praticar hipismo. Até que ganhou do pai um MG, um carro esporte inglês, conversível, sonho de várias gerações. Indicaram-lhe fazer a manutenção da joia rara em uma oficina especializada. O dono era Cláudio, que, piloto e entusiasmado fã da velocidade, promovia encontros da turma do automobilismo.

Foi na oficina que o apelido de Carol pegou de vez. Ele tornou-se o “Chinês”, devido aos traços fisionômicos que resultam de uma intricada árvore genealógica. Seu pai, filho de um português e uma chinesa, nasceu na ilha de Macau, ex-colônia lusitana, hoje devolvida à China. Sua avó materna era índia brasileira.

Consumado o batismo entre a turma, o Chinês já era então um dos ases do kartismo. Guardava sua “máquina” na casa de Valdo Cestari, colega de escola. “Muitas vezes, ele me ajudava no reboque”, diverte-se. “O Valdo tinha uma lambreta e puxava o meu kart até o circuito, que ficava em frente da pista da prefeitura.”

Nem sempre havia reboque. Sem alternativa, Carol dirigia o kart pelas ruas de São Paulo até a pista, muitas vezes rodando mais de 20 km, algo inimaginável na metrópole de hoje. Em Brasília, no ano de 1962, fez o mesmo. “Saí dirigindo do hotel, que ficava no Lago Norte e trafeguei, sem problemas, defronte ao Palácio do Planalto e pela Avenida dos Ministérios até chegar ao local da corrida, na estação rodoviária”, conta. “Também voltei ao hotel guiando.”

Vai bem abrir um parêntese. Aliás, longo. A carreira de Carol, é bom frisar, não se resumiu aos kartódromos. Dirigindo, sobretudo, Gordinis, Alpines e Willys Interlagos para a seleta Equipe Willys, ele também fez bonito nos autódromos, vencendo já na corrida de estreia (1963). Em segundo lugar, chegou o amigão José Carlos Pace.

Carol viveu uma época tão romântica no automobilismo que, ao mesmo tempo, corria pela Willys e trabalhava na revendedora Dacon, que mantinha uma equipe concorrente e onde ele acompanhava de perto a preparação dos carros. Isso gerou situações curiosas, embora jamais constrangedoras. “Venci a corrida da inauguração do autódromo de Jacarepaguá, no Rio de Janeiro, em 1965, e quem cruzou a linha em segundo lugar foi um Karmann Ghia da Dacon”, lembra.

Ainda nos autódromos, Carol fez dupla com José Carlos Pace, Luiz Pereira Bueno, Affonso Giaffone e Marivaldo Fernandes, entre outros feras. Emoções extremas não faltaram. Em uma prova de 50 mil km, teste de resistência com todos os pilotos da Equipe Willys, Bird Clemente capotou e quebrou o para-brisas do automóvel em que os pilotos, sucessivamente, se revezavam. “Quando chegou a minha vez de pilotar o mesmo carro, uma coruja entrou no Gordini”, rememora. “Levei o maior susto.” Sua última corrida em um automóvel foi em Petrópolis (RJ), no ano de 1968, quando sofreu seu pior acidente. Estava ao volante de um Mark 1, da Equipe Ford, e bateu forte na guia. Foi levado desacordado para o hospital e constatou-se a fratura da sexta vértebra. Depois da longa parada forçada, Carol foi liberado, ainda usando colete ortopédico, para voltar à sua primeira paixão: o kartismo.

Ok, o parêntese ficou longo. Mas o fato de a história de Carol e do kartismo brasileiro ser praticamente a mesma, nos obriga a um recuo a 1962, quando o Chinês – na companhia de Maneco Combacau, Cláudio Daniel Rodrigues e Hugo Porta – correu em um velódromo, em Buenos Aires. Ele ri: “O kart tinha um motor de potência tão pequena que tivemos de empurrá-lo na largada para que ganhasse embalo. Só então, pulamos para dentro”.

Complicado. Aleluia, vieram, enfim, os motores dois tempos e, depois, o Kart Mini. Um divisor de águas. Construído por Wilson Fittipaldi Jr., era equipado com um motor desenvolvido por Mário de Carvalho – daí o nome Riomar, anagrama de Mário. “Toda a minha carreira corri de Mini”, conta. “Mas isso não impedia de guardar o kart na mesma garagem em que a turma que dirigia karts concorrentes – feitos pela Silpo, de Silvano Pozzi – guardava os deles.”

Carol viu nascer cada kartódromo, um a um. De Interlagos a Vila Velha, no Paraná. A seu ver, a vitória mais vibrante aconteceu em Volta Redonda (RJ), em uma corrida noturna. O desafio era ganhar de Clóvis de Moraes, um gaúcho bom de braço, que preparava seu kart com muito esmero e, na transmissão, usava engrenagens no lugar da corrente. O testemunho de Carol: “Além de andar na frente, o Clóvis terminava as corridas com o macacão branco limpinho. Naquele dia não foi assim. Sujei o macacão dele”.

Quando passou a correr na categoria 100 cilindradas, Carol começou a utilizar um motor McCulloch, que costumava levar para ser preparado na Califórnia, Estados Unidos – onde, por sinal, o decano Art Ingels montou o primeiro kartódromo da história, em 1956. O passo seguinte foi disputar o Campeonato Mundial, na Bélgica. Carol conseguiu um patrocínio de
US$ 10 mil. Comprou um kart novinho, na Alemanha, passeou em Paris e enviou o carrinho para o Brasil. “Ainda sobrou troco”, comemora.

Algumas lembranças daqueles tempos são dolorosas. Uma delas dá conta da desfaçatez de um garoto que empinava uma pipa com cerol na linha, próximo a Interlagos. O fio esticado atingiu Carol justamente no pescoço. Por sorte, o episódio deixou-lhe apenas uma cicatriz. Outro momento difícil ocorreu ainda na inauguração do kartódromo de Interlagos. Acredite ou não, Carol saiu da pista na curva de chegada e foi parar em uma cerca de arame farpado. Guard-rail? Esqueça.

As ótimas recordações suplantam em muito esses momentos difíceis. Hoje, o homem simpático, casado há 44 anos com Wilda Pagano Figueiredo, pai de quatro filhos, que lhe deram quatro netos, tem diversos orgulhos dos tempos do kartismo. Um deles: “A primeira vez que uma empresa gigante investiu no automobilismo foi no kart. Em 1970, o publicitário Mauro Salles conseguiu com que a Souza Cruz patrocinasse nossa equipe, que incluía os pilotos Maneco Combacau, Paulo Salles e os irmãos Lofti. Era um time totalmente profissional. Tínhamos até caminhão exclusivo para o transporte”. Outro orgulho: “No começo nos anos 1970, eu e o Maneco abrimos uma escola de pilotagem de kart. Era muito boa, modéstia à parte. Formamos muitos campeões”. Campeões como ele, Carol Figueiredo.

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