Bicampeão brasileiro, Lian Duarte ficou dez anos fora das pistas. Voltou. Passou outra década longe das corridas. Retornou. Está há onze anos fora das competições. Cheio de saudade…

Aos 5 anos, Lian de Abreu Duarte deu as primeiras voltas em um carro potente em Interlagos. Era o Jaguar Mark VII de seu pai, um apaixonado por automóveis. Lian seguiu-lhe os passos. Aprendeu a dirigir na fazenda do avô e cronometrava os próprios tempos ao redor do bosque. Depois, tornou-se um assíduo espectador das provas noturnas em Interlagos e dos “rachas” no ainda deserto bairro paulistano do Morumbi.

Foi nos fundos de uma sala de aula do Colégio Paes Leme que Lian perguntou ao colega de classe, Wilson Fittipaldi Júnior, já então conhecido no automobilismo: “Como faço para participar de uma corrida de verdade?”. Wilsinho respondeu: “Fácil. Vá ao Automóvel Clube e se inscreva numa prova de estreantes”.
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Lian aceitou o conselho. Tinha 19 anos e um DKW – preparado pela revendedora Serva Ribeiro -, quando participou da primeira corrida, em Piracicaba, no ano de 1964. Ele recorda: “Aquele carro era o demônio! Cheguei a andar próximo do Simca Chambord do ídolo da região, o Walter Hahn, mas o motor fundiu e voltei para São Paulo guinchado”. Um ano se passou até que Lian voltasse a disputar uma prova – de novo em Piracicaba, agora a bordo de um Gordini. Cruzou a linha em quinto.

Apenas duas corridas. E um convite empolgante: “O Wilsinho chegou gaguejando, dizendo que o Luís Antônio Greco, chefe da equipe oficial da Willys, estava me convidando para pilotar um Renault R8, importado, em outra corrida de novatos. Seria nas ruas de Vitória, no Espírito Santo”.
Pois não é que Lian recebeu a bandeirada em primeiro lugar, já na sua terceira corrida? De quebra, ganhou uma vaga na equipe.

Ainda naquele ano de 1965, dividiu um Renault com Emerson Fittipaldi, nas 24 Horas de Interlagos. A dupla ficou com a quinta colocação na geral, mas venceu na categoria até 850 cc. No final do ano seguinte, a Willys reduziu seus investimentos em corridas e Lian saiu da escuderia. Disputou três provas a bordo de um Karmann Ghia Porsche da Equipe Dacon (foi terceiro, nas ruas de Brasília) e outras três dirigindo um Fitti-Vê, ou seja, um Fórmula Vê, desenvolvido pelos irmãos Fittipaldi (na corrida de Campinas, chegou em segundo, logo depois de Emerson).

A ligação de Lian com os grandes pilotos de sua geração – e ele está nessa lista – sempre foi muito estreita, desde que conheceu Wilsinho. Ao longo dos anos, dividiu um Alpine MK1 com José Carlos Pace e Bird Clemente; e, várias vezes, fez dupla com Luiz Pereira Bueno. Juntos, venceram as 12 Horas de Interlagos de 1970. Assim como vários pilotos daquela geração, Lian também tentou as pistas da Europa. Foram duas vezes.

Na primeira, em 1969, chegou à Inglaterra em companhia de José Carlos Pace e Fritz Jordan. Foram ciceroneados por Emerson Fittipaldi – na época, já vitorioso nas pistas do Velho Mundo. Tudo parecia ótimo. O velho amigo os apresentou a Jim Russell, que, além de proprietário de uma escola de pilotagem, havia sido fundamental no Campeonato de Fórmula 3 vencido por Emerson, na Inglaterra. Pouco depois, Lian já estava treinando com um Fórmula Ford, no circuito de Snetterton. Além do experiente Jim Russell, o próprio Emerson, em pessoa, o orientava na pista. Às vésperas da estreia, no entanto, Lian voltou ao Brasil. Recebera a notícia da morte do pai.

A segunda incursão de Lian na Europa ocorreu em 1972 e tinha tudo para dar certo. Afinal, o ano anterior havia sido consagrador para o piloto. Ao volante do Porsche 910 – que comprara do fluminense Mário Olivetti -, Lian ganhara, em dupla com Francisco Lameirão, as 6 Horas de Interlagos e os 300 km de Tarumã. Com o Porsche 908, em dupla com o amigão de sempre Luiz Pereira Bueno, havia vencido os 500 km de Interlagos. Esses e outros resultados fizeram de Lian Duarte o campeão brasileiro da categoria esporte protótipo de 1971. Para coroar a temporada, a revista AutoEsporte alçou o piloto ao primeiro lugar de seu ranking.

Animado, Lian participou das duas provas de Fórmula 2 em Interlagos, na ilustre companhia de diversas feras da Fórmula 1. Conseguiu o 8o e o 10o lugares, com um defasado March Ford 712. Então, fechou contrato com a equipe britânica BE Racing para disputar o Campeonato Europeu de Fórmula 2. Pace, o Moco, já radicado na Inglaterra, havia feito o mesmo. Ambos se deram mal. O monotipo, fabricado na França pela Pygmée, era muito bonito e tinha a parceria de uma empresa aeroespacial. Entretanto, nada deu certo, em parte devido à mudança do regulamento, de motores 1,6 litro para 2 litros e, principalmente, pela desorganização da equipe.

De volta a São Paulo, Lian participou da minitemporada brasileira de Fórmula 2. Nem quis saber do Pygmée. Preferiu um Surtees TS-10. Nos dois anos seguintes, correu esporadicamente. O autor desta matéria teve a felicidade de dividir com Lian e Edgard de Mello Filho a pilotagem de um Opala, em Interlagos, em uma prova do Campeonato Brasileiro de Turismo, de 1975.

A partir daquele ano, a história do piloto Lian Duarte passou a viver de ciclos. Ele ficou dez anos fora das pistas. Retornou em 1985 e acelerou nas pistas ao longo de quatro anos. Depois, ficou, de novo, mais uma década longe do esporte. Retornou em 1999. Por que esse vai e vem?

“Em 1985, eu estava cuidando dos negócios da família, quando o mesmo Greco, que havia me convidado ainda garoto para competir, me chamou para pilotar um Ford Escort no Campeonato Brasileiro de Marcas”, conta. “Fiquei empolgado. Topei.” Lian tinha 40 anos quando formou dupla com Paulo Carcasci e, depois, com Fábio Greco. Estava em forma. Tanto que sagrou-se campeão, com quatro vitórias.

Permaneceu outros dois anos no Brasileiro de Marcas e, em 1987, venceu em Interlagos e Cascavel, mais uma vez em dupla com Fábio Greco. Na mesma temporada, disputou, paralelamente, o Brasileiro de Stock Car, o que o estimulou a participar, com o apoio de Emerson Fittipaldi, de algumas provas da categoria nos Estados Unidos. “Eu e o Fábio testamos um Mustang da Equipe Saleen, na pista da Ford”, lembra. “Depois, corremos entre os grandes da Stock Car americana e andamos de igual para igual!”

Bastava. A folha de serviços prestados por Lian ao automobilismo brasileiro era suficiente. Ele retirou-se das pistas. Mas, em 1999, aos 54 anos, não conseguiu resistir a um convite de Nelson Piquet para participar de uma prova, em Brasília, a bordo de um protótipo com motor BMW. “Ele me ligou perguntando: ‘Velho, você ainda guia?'”, ri. “Não hesitei em correr em dupla com um tricampeão mundial. Para não fazer feio, antes de chegar a Brasília, treinei de kart. Eu estava fora das corridas havia muito tempo.”

Durante a corrida, a dupla liderava quando Lian sentiu uma forte vibração no veículo e parou no box. O chassis havia trincado. “O Nelson não teve dúvida: deitou embaixo do carro”, diverte-se. “Vi um tricampeão mundial soldando a trinca. Sujo de graxa, o Nelson colocou o capacete e saiu para a pista. Foi uma aula.”

Hoje, aos 63 anos, duas ex-mulheres, quatro filhos e dois netos, Lian Duarte trabalha com Emerson Fittipaldi. Cuida da imagem do ex-piloto. Diz ele: “Sou franco: não preciso fazer muita coisa. O Emerson tem um tremendo carisma e sua imagem é sólida no mundo inteiro. Apenas aconselho a evitar o que não deve ser feito.”

Passando tudo a limpo, Lian, há onze anos fora das pistas, se emociona: “Foi uma honra correr de kart com o Pace; depois dividir carros com o Emerson e os papões da Willys, Bird Clemente e Luiz Pereira Bueno. E ainda encerrei a carreira com o Piquet!”.

Encerrou mesmo? E se Emerson ou outro amigo das antigas telefonar perguntando: “Velho, você ainda guia?”

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