Contos tão curtos quanto cortantes. Essa é a proposta, bem-sucedida, do fotógrafo-escritor Diógenes Moura

Curador de fotografia da Pinacoteca do Estado de São Paulo, Diógenes Moura não se considera um fotógrafo.Embora seja de fato. Ele atribui o ofício da curadoria à arte de aprimorar o próprio olhar e o olhar do outro. Desde 1982, quando publicou Mingau de Almas ou Traço Fixo da Loucura (Fundação Cultural do Estado da Bahia), também é conhecido pelas facetas de poeta e contista. Diógenes acaba de lançar, pela Ateliê Editorial, ficção interrompida (uma caixa de curtas), seu sexto livro, uma compilação de 41 contos concisos – a maioria não vai além de uma página.

À maneira do grande poeta moderno e.e. cummings, o título surge assim mesmo, grafado em minúsculas. Diógenes parece prezar pelo mesmo encontro harmonioso entre linguagem e forma. Desafio esse dos mais caros ao poeta americano. Também chama a atenção o fato de, ao final da edição, o autor incluir um índice remissivo para detalhar situações e locais em que cada um dos textos foi criado.

Nascido em Recife, ele viveu por 17 anos em Salvador e, há 20, fincou raízes na maior metrópole do País. O escritor se diz afeito a temáticas urbanas, mas discorda que o que chamamos de “realidade” seja um conceito homogêneo, inerente a todas as grandes cidades do país: “São Paulo, Salvador e Recife, por mais ‘metrópoles’ que sejam, guardam em seus ‘idiomas’ todas as características regionais que o Brasil apresenta em suas transmutações de corpo e alma. Esse País é um outro País, em cada uma de suas cidades, de seus Estados”.

Embora deixe claras essas diferenças, o autor vasculha personagens anônimos, que têm em comum as mazelas de um cotidiano ordinário. Seja em Brasília, no Farol da Barra (em Salvador) ou na rua dos Andradas – epicentro da cracolândia no centro de São Paulo -, Diógenes está sempre à caça daquilo que o olho não vê.

Como um fotojornalista, atento aos dramas individuais, ele procura subverter a fronteira entre as duas linguagens que domina e defende que esse é um limite imaginário: “Fotografia e literatura não estão separadas. Têm a mesma carga filosófica. São capazes de religar todos os mitos, propor diálogos entre o que poderá ser universal, metafísico, e guardar o mais simples dos segredos, como um retrato, como uma epígrafe, como um haicai”.

Mas qual seria o papel da literatura na vida de alguém que não a tem como ofício? Mera válvula de escape? Ele relativiza a importância de publicar livros e atribui ao ato de escrever uma paixão que antecede seu caso de amor com a fotografia. “Escrevo muito, desde pequeno”, conta. “Todas as tardes de domingo meu avô lia para os netos embaixo de um parreiral. Havia também um primo nosso, Carlos Pena Filho, que foi um grande poeta. Morreu muito jovem, em um acidente de carro. Sempre que algum adulto pronunciava o nome dele, havia uma atmosfera sagrada. Eu gostava disso: de saber que um poeta era um homem que pertencia ao sagrado. Penso que vem daí a literatura. Desse sopro indescritível que é a nossa memória. Só entendo fotografia vendo-a como literatura.”

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