O piloto guiou com maestria muitos carros, dominou as corridas no início da década de 1970 e conquistou o tricampeonato brasileiro na categoria Turismo

E le correu de March/BMW, de MG, de Lola, de Fúria (o carro da foto dessa página), de Fórmula Vê e de Fórmula Ford. Com o Opala, conquistou o tricampeonato brasileiro. Pedro Victor de Lamare foi um batalhador. Lutou muito para consolidar sua vitoriosa carreira. E lutou muito depois que abandonou as corridas. Junto com Gigi de Lamare, sua grande companheira, trocou as pistas pelos cavalos da raça Crioulo. Para Pedro Victor, as coisas nunca foram fáceis. Ele perdeu um filho de 13 anos, Eduardo Victor, excelente cavaleiro, para o câncer. Depois, Gigi também faleceu.

Nas pistas, de Lamare foi, se não o maior, um dos principais pilotos brasileiros a brilhar com o elegante e imponente Opala, primeiro veículo da General Motors no Brasil. Os amantes do automobilismo que acompanharam as corridas no começo da década de 1970 não se esquecem da beleza do seu Opala azul, no 84 e motor 4100 cc, conduzido com maestria e eficácia.
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Mas não foi com esse veículo que de Lamare fez suas primeiras “loucuras” pilotando um quatro rodas. Bem antes, ainda sem idade para tirar a carteira de habilitação, dirigiu um Ford 1950, escondido da família, e depois um VW 1953, presente do pai por ter ingressado, aos 17 anos, na faculdade de Direito. A grande paixão pela velocidade surgiu após um encontro em Santos, sua terra natal, com Luiz Pereira Bueno, apenas um ano mais velho que de Lamare e que também viria a se tornar um dos principais pilotos do País. Em Santos, Bueno apresentou ao novo amigo um MG, desenvolvido na oficina de seu cunhado Cláudio Daniel Rodrigues, um expert na marca. A partir daí, de Lamare passou a ler tudo sobre automobilismo, para depois colocar em prática o que aprendeu nas publicações especializadas.

O primeiro “teste” foi feito com o seu Fusca 1953, já todo depenado para eliminar peso. As aventuras nas “pistas” de Santos ganharam emoção quando de Lamare trocou o VW 1953 por um MG TC 1949, que logo foi levado ao “especialista” Cláudio Daniel Rodrigues para “pequenos ajustes”, como o rebaixamento do cabeçote, a troca de rodas originais por aro 16 e colocação de pneus mais largos. “Para avaliar as modificações feitas no MG, fomos, eu e o Luizinho (Luiz Pereira Bueno), ao Guarujá pelas curvas da Estrada Velha de Santos e ficamos tão animados com a performance do carro que, ao retornarmos para São Paulo, marcamos uma disputa com o MG do Pascoal Nastromagario (outro grande piloto), que tinha carroceria de alumínio, com melhor perfil aerodinâmico e que já corria em Interlagos”, conta de Lamare. O “racha” ocorreu na então badalada rua Augusta, em São Paulo. “Alinhamos os carros no início da subida da Augusta, aceleramos até a avenida Paulista e descemos, embalados, pela rua Padre João Manoel em alta velocidade. Foram umas quatro voltas de pura emoção e escapamos ilesos desta aventura”, relembra.

Com o bom desempenho nos asfaltos, não demorou muito para de Lamare levar seu MG TC para Interlagos, em 1957. Aos 20 anos de idade, fez sua primeira corrida oficial ao participar da segunda prova do evento Cinquentenário do Automóvel Clube do Brasil. Chegou em 15o lugar na classificação geral e ficou em quarto na categoria Esporte até 2000 cc. No ano seguinte, o piloto participou dos 500 km de Interlagos, fazendo dupla com o amigo santista Marivaldo Fernandes.

Após ficar alguns anos longe do automobilismo, para concluir o curso de Direito, de Lamare voltou às pistas em 1965, pilotando um Renault modelo 1093, preparado pela oficina Torke, de Luiz Pereira Bueno. Além do bom carro, o piloto recebeu um outro incentivo para retornar ao mundo da velocidade, o apoio da linda modelo Marlene Kampmann, com quem ele havia se casado um ano antes. Gigi, como ela era conhecida, passou a administrar a carreira do marido, além de ser sua cronometrista nas pistas do País.

Com o seu Renault 1093 e a ajuda especial de sua mulher, o piloto só precisava agora ingressar em uma grande escuderia para deslanchar na carreira. Ao virar uma volta em Interlagos em 4’30”, ótimo tempo para o seu tipo de carro, ele chamou a atenção de Luiz Antônio Greco, o chefe da Willys, que não demorou muito em convidá-lo para participar oficialmente de sua equipe.

Além da Willys, de Lamare participou, em 1967, da primeira temporada de Fórmula Vê no Brasil e conquistou o terceiro lugar no Rio de Janeiro, com um Fitti-Vê preparado na concessionária Mecanova, dos irmãos Otto e Fritz Jordan. Nessa mesma época, o piloto resolveu colocar em prática uma ideia inovadora para época: abrir uma escola de pilotagem em sociedade com Wilsinho Fittipaldi, com o patrocínio da Bardahl. Com sucesso imediato, a Escola de Pilotagem Bardahl, situada em frente ao autódromo de Interlagos, era administrada por Gigi e tinha de Lamare como principal instrutor. No primeiro ano de funcionamento, a escola formou 400 pilotos, o que levou o casal a abrir uma filial em Porto Alegre.

Em 1968, de Lamare aceitou um convite para integrar a nova equipe da BMW, então comandada por Eugenio Martins e Chico Landi. A bordo de um BMW Alpina 2000 cc, ele conseguiu conquistar sua primeira vitória na carreira, fazendo dupla com o autor desse texto, as 500 milhas da Guanabara. No topo do pódio e bastante emocionado, o piloto santista disse ao parceiro de corrida: “Hoje choveu na nossa horta”.

Mas não foi somente a “horta” do piloto que passou a brotar no fim dos anos 1960 e começo da década de 1970. Nessa época, o automobilismo brasileiro ganhou destaque internacional, depois que o piloto Emerson Fittipaldi obteve a sua primeira vitória na Fórmula 1 ao faturar o Grande Prêmio dos Estados Unidos, em 1970. No Brasil, o clima também era de euforia por causa da reinauguração do autódromo de Interlagos, que, após passar por algumas reformas, teve sua pista totalmente renovada, com asfalto novo e uma ampla área de escape – tudo o que precisava para colocá-lo no circuito de provas internacionais, como a própria Fórmula 1.

O processo de profissionalização do automobilismo brasileiro logo atraiu o interesse de grandes patrocinadores. Atento a esse movimento, o piloto não pensou duas vezes ao levar adiante a ideia de abrir sua própria equipe, a De Lamare Competições, cuja oficina ficava no mesmo local da escola de pilotos e contava com a supervisão mecânica de Manelão (Manoel de Jesus Ferreira) e Caito (Caio Luis Queiroz Telles de Mattos). Um Opala azul, recém-lançado pela GM do Brasil, foi o carro escolhido para competir na categoria Turismo. Rapidamente, o piloto transformou-se no “bicho papão” das pistas, primeiro vencendo de ponta a ponta a corrida que marcou a inauguração do autódromo de Tarumã (RS), em 1970. Depois, tornando-se tricampeão (1971, 1972 e 1973) na categoria Turismo/Divisão 3 – destaque para o bicampeonato, marcado por disputas memoráveis entre de Lamare e seu amigo Luiz Pereira Bueno, que defendia a equipe Hollywood.

A equipe De Lamare enchia os olhos do público com seu Opala cupê duas portas, motor 4100 cc, predominantemente azul (na conquista do tricampeonato, em 1973, porém, o piloto correu com um carro amarelo, exigência do novo patrocinador, a Eletroradiobraz) e sempre ostentando o número 84. Hoje, é reconhecido como um dos precursores do modelo de corrida adotado pela Stock Car brasileira que, entre 1979 e 1993, utilizou somente o Opala em suas competições oficiais.

O piloto também correu com outros carros e participou de diversos campeonatos, como o Torneio SUDAM (competição entre brasileiros e argentinos), em 1971, quando dirigiu um protótipo Fúria, produzido pelo brasileiro Toni Bianco e com motor Chevrolet 4 cilindros de 2,5 litros, outra novidade da GM do Brasil. No mesmo ano, participou do Campeonato Brasileiro de Fórmula Ford, a bordo de um Bino azul, ficando em segundo lugar, atrás do campeão Francisco Lameirão. “Em 1971, corri em três categorias diferentes e fui campeão brasileiro na classe Turismo com o Opala, vice na Fórmula Ford e ainda ganhei algumas provas na categoria Esporte Protótipo até 2,5 litros”, relembra.

Em 1972, Pedro Victor resolveu testar o protótipo argentino Trueno Sprint, projetado por Horacio Stevens. “O motor (Chevrolet) era forte, mas o carro era difícil de guiar, arisco demais e com pouca aderência”. Nessa época, ele ainda participou do Torneio Internacional de Fórmula 2 realizado no Brasil, correndo com um March 722-Ford. No mesmo ano, a De Lamare trocou o protótipo Fúria pelo Avallone, projeto do brasileiro Antônio Carlos Avallone, que foi devidamente equipado com o motor do Opala de 6 cilindros. Com esse carro, subiu ao pódio ao conquistar o terceiro lugar em Buenos Aires, durante o torneio SUDAM.

Em 1973, para coroar a carreira bem-sucedida, Pedro Victor decidiu disputar o Campeonato Europeu de viaturas esporte até 2 litros. Saiu do País em direção a Londres com um contrato de dois anos debaixo do braço que fora assinado com o patrocinador SPI (Sociedade Paulista de Investimentos), banco de seu amigo Jayme Levi. Em solo europeu, também montou a própria equipe e correu a bordo de um protótipo March com motor BMW de 2 litros. O começo de sua carreira internacional não foi nada fácil. “Os primeiros meses em terras alheias é sempre difícil, e pagamos um certo preço pela juventude da equipe”. Mesmo assim, conseguiu vencer duas corridas em 1974, em Thruxton e Oulton Park. “A equipe terminou a temporada como vice-campeã inglesa na categoria protótipo 2 litros”. Em Brands Hatch (Inglaterra), o piloto bateu o recorde de volta na categoria, marca que perdurou por mais de dois anos.

Na metade final da temporada de 1974, Pedro Victor trocou o motor BMW, de custos muitos altos, pelo motor Ford Cosworth, e participou de provas de longa duração em Brands Hatch, Mugello (Itália) e Dijon (França), sempre em dupla com Antônio Castro Prado. Sem fôlego financeiro, o piloto decidiu voltar ao Brasil e foi morar em Campos de Jordão (SP), onde descobriu uma nova paixão, além dos carros de corrida – a criação de cavalos de raça. Para não perder o espírito empreendedor, de Lamare ajudou a lançar uma categoria de esporte a cavalos até então desconhecida do brasileiro, o hipismo rural (em 1979, conseguiu organizar o primeiro torneio com patrocínio). Depois de morar por algum tempo na cidade serrana de São Paulo, ele partiu para Uruguaiana, no Rio Grande do Sul, e depois foi administrar uma fazenda em Punta del Este, no Uruguai. Hoje, aos 73 anos, o batalhador Pedro Victor mora na capital paulista.

Link curto: http://brasileiros.com.br/fCye2
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  • Carlos

    Este é um grande piloto e batalhador que merece uma homenagem.

  • Ronaldom

    Vida longa ao Pedro V. Delamare
    Estamos fazendo uma homenagem e montando seu modelo de 73 numa miniatura.
    Veja o link
    http://papercraftgenial.com.br/index.php/paper-forum/5/26

  • americo figueiredo

    Errata , anos 80 e não 90 .

  • americo figueiredo

    Fui seu aluno na escolinha Bardhal , nos 70 . Nos anos 90 , convivemos muito ao redor dos ¨Crioulos¨ e ¨Árabes¨ , em Campos do Jordão , onde vivíamos e convivíamos . Exemplo de astucia , tenacidade , caráter , fidalguia e generosidade , além
    de um amigo difícil de se encontrar e impossível de se substituir . Da-lhe Don Pedrito , no alto dos
    seus 77 anos , continua conosco , para nossa imensa alegria .
    Campos do Jordão / Setembro/2014 .