…filho único, órfão, solteirão, estéril e brocha – única maneira de o biógrafo ficar a salvo de encrencas

No dia seguinte à morte de Tom Jobim em Nova York, em dezembro de 1994, um editor brasileiro me telefonou. Uma importante editora americana queria uma biografia de Jobim, feita por mim. A encomenda já vinha completa: tantas páginas, prazo xis para trabalhar – dois anos e um caminhão de dinheiro como adiantamento, metade na assinatura do contrato, metade na entrega. E mais a glória de o autor se ver publicado em grande gala nos EUA, sendo vendido na Brentano, resenhado pela New Yorker e lido pelo presidente Clinton enquanto alguma secretária lhe executava um solo de clarineta. Etc., etc. Confessei-me honrado, agradeci – e recusei.

Naquele momento, era impraticável. Não apenas eu estava pessoalmente de luto pela morte de Tom como todo mundo que eu conhecia e, pelo visto, o Brasil inteiro. Dali a dias, seu corpo chegou de Nova York para ser enterrado no Rio. No caminho entre o Galeão e o Jardim Botânico, onde ele seria velado, o carro dos bombeiros trazendo seu caixão parou num cruzamento. Um ônibus escolar encostou casualmente ao lado e 40 crianças botaram a cabeça para fora das janelas e cantaram, em coro, “Garota de Ipanema”. Com uma semana de morte, Tom Jobim não tinha um único defeito. Seus amigos, mesmo que tentassem ser objetivos, só teriam memória para suas incontáveis qualidades. Eu próprio já estava achando que a morte de Tom era um equívoco e que ele ressuscitaria ao terceiro dia. E isso se prolongaria por muitos anos.
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O episódio serviu para reavivar uma antiga certeza. Se, de há muito, eu já me convencera de que era impossível biografar uma pessoa viva, descobria agora que não bastava ao biografado estar morto. Ele não podia ser um morto recente. Precisava estar morto já há algum tempo – no mínimo, dez anos – o necessário para que amigos e inimigos se sentissem mais livres para falar a seu respeito.

Quanto à necessidade de o sujeito estar morto para ser um biografável confiável, os motivos sempre me pareceram óbvios. Com o biografado vivo, o autor tem a obrigação de ouvi-lo e de usá-lo como sua fonte. Supondo que o biografado tenha concordado com a biografia e se mostrado disposto a colaborar com autor, “contando tudo”, pode-se garantir que ele mentirá para o biógrafo. Talvez não o faça por mal, mas, como dizia Nelson Rodrigues, “todo mundo se olha ao espelho e se enxerga num vitral”. Portanto, o biografado mentirá sobre si mesmo e, pior, também obrigará seus amigos a mentir. É claro: toda pessoa importante o suficiente para merecer uma biografia será igualmente importante para influenciar os amigos e, se preciso, ordenar-lhes que omitam ou se desviem de certos fatos. Isso para não falar num caso de patologia como o de – como se chama mesmo? Ah, sim: Roberto Carlos. Paulo César de Araújo, seu biógrafo, escreveu um livro em que só faltou chamá-lo de santo, e teve o dissabor de ver seu livro proibido, destruído e enxovalhado – apenas porque Roberto Carlos não gosta que falem de sua vida, nem a favor. Imagine se Paulo César tivesse contado o que realmente sabia.

Não quer dizer que, com o biografado morto, o autor estará livre de problemas. De certa maneira, esses problemas são até piores, só que de outra natureza. Devo citar o meu caso? Durante os três anos, de 1993 a 1995, em que trabalhei em Estrela Solitária – Um Brasileiro Chamado Garrincha, fui a Pau Grande, cidadezinha natal do jogador, seis ou sete vezes. Em todas elas, procurei as filhas de Garrincha com sua primeira mulher, dona Nair, estive em suas casas e falei longamente com elas e com seus maridos. Falei também com Iracy, que, idem, morava lá e que Garrincha também namorara, e conheci Marcia, sua bela filha com o jogador. No Rio, fui a Bangu e passei duas tardes inteiras com Vanderléa, última mulher do craque. Livia, filha de Vanderléa com Garrincha e então adolescente, estava presente o tempo todo – a pedido da mãe, ajudei-a duas vezes em seus deveres de escola. E tanto isso é verdade que, entre as pessoas que me serviram de fonte e a quem eu agradeci por terem me fornecido informações, todas têm seus nomes citados no livro, na seção “Agradecimentos”. Pois bem. Assim que Estrela Solitária saiu, todas processaram a Companhia das Letras por ter editado um livro sem “autorização”.

Chame a isto uma autêntica indústria do herdeiro. São os filhos, netos, viúvas, sobrinhos, genros, irmãos e, em alguns casos, ex-mulheres e até ex-namoradas – todos municiados por advogados e de olho em qualquer naco que possam abocanhar, seja por dinheiro a vista ou por um processo para “proteger” a imagem do parente ilustre. A lei, quase sempre, lhes dá ganho de causa.

Um dia, o livro acaba liberado, mas quem compensa a editora ou o autor por seus prejuízos? Estrela Solitária saiu em novembro de 1995, sob enorme expectativa. Foi proibido um mês depois e levou 11 meses para poder voltar a circular, em outubro de 1996. Quando isso aconteceu, o impacto inicial, inclusive o da proibição, já passara, e ele ressurgiu meia-bomba em termos de vendas. Mas o processo se arrastou pelos 11 anos seguintes e só foi encerrado em 2006, com um acordo entre as partes – pedido pelas filhas de Garrincha.

Há dois anos, felizmente não tive problemas com Carmen – Uma Biografia, meu livro sobre Carmen Miranda. Mas, se for me meter em outra biografia, já decidi: meu biografado não poderá ter parentes ou herdeiros por lado nenhum. Para isto, terá de ser, se possível, filho único, órfão, solteirão, estéril e brocha.

Link curto: http://brasileiros.com.br/4ANAS
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